sexta-feira, 28 de maio de 2010

CARLOS PENA FILHO




Chopp
Carlos Pena Filho

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.
Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.
Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados


SONETO DO DESMANTELO AZUL

Carlos Pena Filho

Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.


A SOLIDÃO E SUA PORTA

(a Francisco Brennand)

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar,
(nem o torpor do sono que se espalha).
Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

2 comentários:

  1. Tuninho
    gostaria de fazer uma observação que, espero, seja construtiva:
    Sei da importância do conteúdo dos poemas, mas também da importância de sua forma. A forma contribui com a expressão estética provocando a experiência sensorial, sensitiva, espiritual.
    Senti falta das divisões estróficas dos sonetos de Carlos Penna Filho.
    No mais, parabéns pelo trabalho no blog!
    Ivan Marinho.

    ResponderExcluir
  2. A criatura acima não me parece muito conhecedora de literatura... Menos ainda de soneto... Essa divisão de estrofe em um soneto é coisa que só mesmo uma criança sentiria falta, porque crianças veem tudo como se fosse um desenho. O soneto não sai prejudicado em nada se suas estrofes ficam juntas formando um bloco, um poema monoestrófico. Milhões de sonetos, como os de Shakespeare, são arrumados assim. E pode ser mexido à vontade, que não compromete em nada o ritmo, a cadência, a fruição do soneto. Burrice, enfim.

    ResponderExcluir