sábado, 10 de novembro de 2012

A FACE OCULTA DE BELCHIOR


Douglas Menezes*

Escuto com prazer e sempre numa paixão renovada “De Primeira Grandeza”, poesia música do compositor cearense Belchior. Canção transformada em hino do amor de todas formas. Uma exaltação aos deuses que propagam a afetividade sem medida, inclusive aquela cuja sociedade hipócrita ainda põe como pecado e passível de recriminação pública.
  Música de melodia simples, sensível, mas de uma letra profunda, tem, no eu- lírico, a voz homossexual declarada logo no começo, como um aviso aos navegantes, ao mesmo tempo que expressa a condição de artista, daquele que vai ao palco para brilhar, difundir ilusões e talvez mostrar sua outra face, que a vida real não permite mostrar. Início de uma canção marcante, como de resto é toda obra do cantor brasileiro: “Quando estou sob as luzes / Não tenho medo de nada / E a face oculta da lua que é a minha/ Aparece iluminada/ Sou o que escondo sendo uma mulher / Igual a tua namorada...”
    A partir daí, no entanto, há toda uma valorização da condição masculina e feminina. A importância de todos os gêneros aflora de modo cristalino, mostrando que somos seres em igualdade de condições, independente de opção sexual, para viver a vida com intensidade e paixão.
    Primeiro, a força masculina, sua importância para a existência humana: “ A força masculina atrai e não é só ilusão”. Lembrando antes a presença feminina atraída pelo oposto: “Musa, deusa, mulher, cantora e bailarina”. Como fica evidente, então, a concepção democrática do eu-lírico! Como difere daqueles movimentos “libertadores” que criam abismos humanos, incentivando o rancor e a noção de que a liberdade deve ser cultuada apenas para o gênero que se supõe merecedor dela! O cearense dá a noção exata do valor humano como um todo, inclusive lembrando ao ouvinte essa visão, quando junta os dois lados humanos, homem e mulher: “ Anjo, herói, Prometeu, poeta e dançarino / A glória feminina existe e não se fez em vão”. Então, o homossexual do início, conclama a todos a serem iguais enquanto seres fazedores da humanidade. A primeira grandeza é justamente a busca da fraternidade e do direito ao prazer que as pessoas deveriam possuir.
   Por fim, a certeza de que só se vive bem a vida quando, no cerne dela, existe paixão. Tudo o que a humanidade construiu de bom e de ruim até hoje foi fruto de uma visão apaixonada: “ E se destina ao gozo a mais que se imagina / O louco que pensou a vida sem paixão”.


*Douglas Menezes é da Academia Cabense de Letras
 

Um comentário:

  1. fausto lopes soares21 de novembro de 2012 09:03

    como faço para enviar letras de músicas para o site oficial do Belchior?

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