terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

AS VITRINES: FORMA E CONTEÚDO, COESÃO E COERÊNCIA.


                                      DOUGLAS MENEZES
                                      AS VITRINES – CHICO BUARQUE
Eu te vejo  sair por aí / Te avisei que a cidade era um vão / Dá tua mão / -Olha pra mim / - Não faz assim / - Não vai lá não / Os letreiros a te colorir /  Embaraçam a minha visão / Eu te vi suspirar de aflição / E sair da sessão frouxa de rir. / Já te vejo brincando gostando de ser / Tua sombra a se multiplicar/ Nos teus olhos também posso ver / As vitrines te vendo passar /  Na galeria / Cada clarão / É como um dia depois de outro dia/ Abrindo um salão / Passas em exposição / Passas sem ver teu vigia / Catando a poesia / Que entornas no chão.
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  O texto “As Vitrines”, letra e música de Chico Buarque, pode ser  inserido, dentro da música brasileira, como uma canção popular e, ao mesmo tempo, um poema concreto, além de um romântico exercício de voyeurismo, estranhamente concebido, também, como um jogo, uma prática lúdica, tornando-o uma das produções mais criativas de Chico.
   Toda “As Vitrines” nos leva a um mundo de espelhos de reflexos mágicos, uma viagem a princípio confusa, um labirinto de vidros e figuras geométricas, que depois de penetradas, desvendadas em todas as suas nuances, vislumbra-se um texto coeso e coerente, dentro da proposta do autor, brincante das palavras, de esgotar as possibilidades semânticas dos vocábulos, dando volume aos significantes e significados do texto. Uma inesgotável capacidade criativa refletida na formação de outro poema dentro da poesia mãe.
    A atitude patológica do eu lírico, obsessão, perseguição desesperada a um ente amado , torna-se uma viagem a um mundo subjetivo de sonho. E o que se prenunciaria como um conto de mistério, terror e suspense, filme policial é, na essência, uma declaração de amor. Um amante tímido, sem coragem de declarar-se, escolhendo a perseguição oculta como forma de expressão maior e, ao contrário dos criminosos esquizofrênicos das narrativas policiais, o nosso voyeur acaba causando-nos simpatia, nos poucos mais de três minutos da música.
    No entanto, é também objetivo deste trabalho, analisar os elementos que levam  à `textualidade da canção.
    Antes, porém, é preciso justificar o porquê de chamarmos de poema concreto a música do compositor carioca. Na verdade, só podemos confirmar isto se dispormos o texto, a letra da música de forma normal,  de cabeça para baixo e de trá para frente. Aí, tem-se a ideia de ver-se múltiplas imagens refletidas nas vitrines, formando um retângulo que nos remete a uma loja, de uma vitrine ou de uma cadeia de estabelecimentos de vidro. E a ocupação desta maneira no papel caracteriza o poema-concreto. Domina, aí, a noção predominante do significante: som da música e imagem evocadora do ambiente em que circula o alvo da observação.
   Salta, então, aos olhos, ao analisarmos atentamente a letra da música, uma unidade de sentido enorme. Uma coerência de significados mantidas do início ao fim. Ao descobrirmos o voyeur, suas intenções, descortinamos, ao mesmo tempo, a linha sequencial da significação, e por ser um texto literário, essa coerência se dá a nível de linguagem figurada e na ampliação da capacidade semântica dos vocábulos. Seria bom lembrarmos que a coerência implica conhecimento prévio por parte do leitor receptor a respeito de como se configura um escrito de característica literária. Sem esse conhecimento, impossível buscar ou encontrar coerência em um texto. Assim, passeemos pela linguagem conotativa, cuja presença nos traz a primeira grande diferença entre o não literário e a escritura artística.
     A primeira metáfora surgida nos sugere o domínio que o objeto amado possui da cidade: “Te avisei que a cidade era um vão da tua mão”. Depois, um hipotético diálogo, que só existe na confusa mente do voyeur: “Da tua mão, / Olha pra mim / Não faz assim / Não vai lá não”. Entretanto, ela continua, indiferente, o seu percurso pela cidade. Resta ao eu lírico, acompanhá-la. Aparece, a partir daí, outra figura, a Personificação: “Os letreiros a te colorir / Embaraçam a minha visão”. Neste verso, a clara intenção do poeta em tornar opaco, sem nitidez, todo o drama do personagem perseguidor. Imagem belíssima aparece logo abaixo, onde os olhos do objeto amado ao invés de virem as vitrines, ocorre justamente o contrário:“Nos teus  olhos também posso ver/ as vitrines te vendo passar”. Prosopopeia bonita, além de imagem criativa, ampliando e aprofundando a conotação e a capacidade semântica das palavras. Na sequência, surge uma Comparação, enriquecida caso fosse transformada numa Metáfora: “Cada clarão é como um dia. No entanto, isto não compromete a  literariedade  do texto como um todo.
     O trato especial dado à linguagem nos remete à constatação de que todo o processo conotativo serve, sobremaneira, ao aspecto da coerência. Imagens e figuras juntam-se para confluírem a um mesmo objetivo: dar sentido ao conteúdo do texto. E com certeza, esse alvo é atingido, à medida em que o “voyeurismo romântico” aparece como temática básica da canção, além do sentido de poesia concreta aqui já citada, tendo neste ponto, uma outra possível interpretação dessa “concretude”. A configuração gráfica da letra no papel pode nos dar ideia de que a própria poesia se desmantela, num desespero do “vigia”: Passas em exposição / Passas sem ver teu vigia / Catando a poesia / Que entornas no chão”.
     E para ilustrar a marcante coerência do texto e afirmando a escolha do título, ao colocarmos o poema frente a um espelho,  encontramos uma nova poesia, a imagem refletida torna-se um outra realidade. A escrita virtual, fruto da genialidade de Chico,  expressa-se assim: “Ler os letreiros aí troco / Embaçam a visão marinha / Vi tuas fúrias e predileção/  Errar, sisuda, sã, fora dos eixos / Doce vento, grandes beijos do jantar / Um militar saber tuas poucas / bem postos meus veros antolhos /  Patinavas, sorvetes, diners /  na alegria o cara do clã/ Um doutor doido me cedia poesia / Um absalão rindo / Pião, sexo, asa, espaço / és supita virgem avessa / A asteca do piano / Quão sonha no Center”.
       Observe que o outro texto surgido do reflexo do espelho, representa a caoticidade,  a angústia do voyeur ou vigia. É o mundo desintegrado, tal qual o de Luís da silva, de Graciliano Ramos. Esse surrealismo de fato torna-se plausível com o doentio mundo mental do eu lírico. Um subconsciente incoerentemente coerente (rima proposital).
        A partir daí, analisemos outros aspectos que contribuem para a textualidade do poema.
        Um deles é a intencionalidade. Um item que tem muito a ver com o diálogo entre emissor e receptor, pois embora saibamos que a intencionalidade é prerrogativa do produtor do texto, no caso, o leitor ouvinte vai reconhecer esse elemento. No instante em que interpretamos “As Vitrines”, como exercício obsessivo de um voyeur perseguindo sua amada através da cidade e fazendo brincadeiras em um labirinto de espelhos, vislumbramos, também, a intenção de Chico, em expor no conteúdo essa mesma visão. O jogo lúdico é a visão quase infantil do eu lírico com relação ao objeto amado, fazendo essa intencionalidade parte do todo coerente da música. A descoberta da intencionalidade é algo complexo pois não se trata de um depoimento explícito do autor,  mas uma intuição de quem analisa e, sobretudo, um aprofundamento, um mergulho nas entranhas do texto.
      Da mesma forma aparece a Aceitabilidade, numa relação estreita com a “intenção”. E aí, no caso da obra em foco, essa é função é exercida plenamente por haver um certo grau de conhecimento literário por parte do receptor. Mas, além de se ter um domínio teórico de Literatura,  torna-se importante  conhecermos algo sobre psicologia e, retornando ao literário, elementos da narrativa e, lógico, de Linguagem Figurada.
      Outro fator de textualidade encontrado na canção diz respeito à Situacionalidade. O ambiente da música combina bem com seu conteúdo. Uma cidade grande, uma rua comercial ou galeria que dão suporte e condições para situarmos o tema. Esse fator nos afigura particularmente importante, já que não bastariam os aspectos psicológicos do “vigia”, suas ações, seu romantismo e a indiferença do objeto alvo, se não soubéssemos onde se dão os acontecimentos expressos. Não haveria compreensão temática sem o ambiente,  a Situacionalidade.
         O fetichismo ou sua parte patológica acompanha a história da humanidade. As perversões de qualquer ordem, por outro lado, sempre foram conteúdos da Literatura,  através dos tempos, estão aí, os romances naturalistas que não nos deixam mentir. As obsessões de todas as formas caminham com o ser humano. E Chico, em “As Vitrines”, na temática, não foi original. Isto confirma a teoria da Intertextualidade. Não há escrito adâmicos, totalmente original. O que existe é um grau maior ou menor de distanciamento. A obra de Chico, no texto em foco, lembra alguma coisa de Nelson Rodrigues, a ênfase à perversão, ao comportamento patológico. E mais ainda, retoma o fetiche encontrado em “A Pata da Gazela”, de José de Alencar, onde o personagem principal possui doentia obsessão por um pé feminino, e pratica seu voyeurismo em todo os recantos da cidade. Isto, entretanto, não invalida a obra musical  buarqueana, já que esse princípio, o da intertextualidade, faz parte dos fatores da textualidade. Aliás, podemos mesmo dizer que o poeta com “As Vitrines” exercita a Intertextualidade interna, ou seja, a Intratextualidade, pois na música “Até Pensei”, do início de sua carreira, há um claro fetichismo: um adultério não consumado, pela existência apenas na imaginação do eu lírico, observador atraído amorosamente por uma vizinha: “ Junto a mim morava a minha amada / De olhos claros como o dia / Lá o meu olhar vivia de sonhos e fantasia / E a dona dos olhos nem via / Do lado de lá tanta ventura / E eu aqui na noite escura a dedilhar essa modinha / A felicidade morava tão vizinha / Que de tolo até pensei que fosse minha”.
     Passemos, então, para os fatores de coesão, cuja presença, contribui para a compreensão e estabelecimento da coerência.
     De fato, alguns acham ser a Coesão dispensável na busca da textualidade, isto considerando esse fator como elemento a nível sintático e de ligação. Sabemos, no entanto,  que mesmo aparecendo de modo implícito, ela estabelece um elo para que o texto torne-se coerente, tenha sentido e esclareça para o leitor ou  ouvinte tudo o que na verdade o  autor quer dizer.
     Iniciemos pelo ritmo empreendido no poema. E já podemos dizer da afinidade entre a coesão e coerência textuais. Quem conhece a música As Vitrines sente que o andamento lembra algo como uma espreita, um constante vaguear lento por algum espaço. Um tom de suspense leve. Recordemos a Intertextualidade numa sequência de ritmo monolítico, com algumas variações de intensidade, depois voltando à monotonia inicial., indicando melancolia e um tom romântico.
     Observemos, agora, a recorrência ao pronome TE, indicando a necessidade do voyeur em mostrar-se íntimo da pessoa observada. Essa recorrência ocorre mais de meia dúzia de vezes, indicando obsessão, bem ao feitio do conteúdo do texto.
    É apropriado, olharmos também,no tocante à Coesão, o uso do discurso direto, num hipotético diálogo que não existe. O EU imaginando-se numa conversa com o ente amado,  fruto de sua desintegração mental.
   No aspecto da Coesão sequencial,  quanto às pro- formas verbais, analisamos a presença de três situações: a primeira, verbos no presente do indicativo, mostrando o flagrante, o instantâneo, a ação do momento. Depois, verbos no passado, como a indicar idas e vindas, na confusão mental. E por fim, a forma nominal gerúndio, focalizando os atos sendo feitos, numa expressão de movimento. As mudanças verbais não prejudicam o fator sequencial, pois estas servem a toda a coerência do texto.
   Enfim, Chico produz, ao longo de décadas, uma obra extremamente criativa e coerente, onde não se esgotam as análises, sempre havendo algo mais a dizer.Basta ver esta canção em análise,  aparentemente  despretensiosa,   tema de uma novela de Tv, mas que carrega um sem número de fundamentos artísticos, tanto na forma como no conteúdo. Chico parece ser daquela estirpe de artistas cuja a obra não morrerá nunca, ultrapassa o tempo, desce, sem parar, como cachoeira rio abaixo  ao encontro de um oceano criativo que parece não enxergar um final.

  DOUGLAS MENEZES , FORMADO EM LETRAS  E EM COMUNICAÇÃO SOCIAL PELA UFPE. É ESPECIALISTA EM LITERATURA BRASILEIRA E EM LEITURA, COMPREENSÃO E PRODUÇÃO TEXTUAL. É PROFESSOR DA REDE PÚBLICA DO ESTADO DE PERNAMBUCO E DA REDE  PARTICULAR. MEMBRO DA ACADEMIA CABENSE DE LETRAS.
DOUGLAS MENEZES. EMAIL: douglasmenezesnet@gmail.com
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3 comentários:

  1. Olá professor, boa noite! Estou fazendo um trabalho em que o professor pede que eu argumente essa canção colocando a função e nível/ registro de linguagem predominante.
    Li seu post gostei muito mas ainda sinto-me insegura para começar a minha argumentação.
    Ótimo domingo!

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  2. Magnífica a sua análise! Obrigada por compartilhá-la!

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  3. Magnífica a sua análise! Obrigada por compartilhá-la!

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