quinta-feira, 21 de abril de 2011

FELIZ PÁSCOA

Frei Betto*
(colaboração Tereza Soares

Feliz Páscoa aos que desdobram a subjetividade, rompendo a casca do ego para deixar renascer a mulher ou o homem novo, e a quem se nutre de TV sem enxergar as maravilhas encerradas no próprio peito.


Feliz Páscoa aos artífices da paz que, entre conflitos, exalam suavidade, não achibatam com a língua a fama alheia, nem naufragam nas próprias feridas. E aos emotivos que deixam escapar das mãos as rédeas da paciência e nunca abandonam as esporas da ansiedade.


Feliz Páscoa aos que tecem com o olhar o perfil da alma e, no silêncio dos toques, curam a pele de toda aspereza. E aos amantes tragados pelo ritmo incessante de trabalho, carentes de carícias, que postergam para o futuro o presente que nunca se dão.


Feliz Páscoa a quem acredita ser o ovo portador de vida, sem que a fé exija que o quebre, e aos incrédulos e a todos que jamais dobraram os joelhos diante do mistério divino.

Feliz Páscoa aos que identificam as trilhas aventurosas da vida mapeadas na geografia de suas rugas e não se envergonham da topografia disforme de seus corpos. E a todos aqueles que, robotizados pela moda, se revestem de estátuas gregas carcomidas pela anorexia, sem se dar conta de que a mente mente.


Feliz Páscoa aos que ousam ser gentis e doces, sem pudor de abraçar o menino que carregam dentro de si. E aos afoitos, competitivos, turbinados e sarados, enamorados da própria vaidade, incapazes de suportar uma fila de espera.

Feliz Páscoa aos que sabem amarrar o seu burrico à sombra da sabedoria e jamais negociam a felicidade em troca de uma arroba de milho que, vista à distância, parece pepita de ouro. E aos idólatras do dinheiro, fiéis devotos dos oráculos do mercado, reféns de pobres desejos que, saciados de supérfluos, nunca alcançam o essencial.

Feliz Páscoa a quem abre caminhos com os próprios passos e cultiva em seus jardins a rosa dos ventos. E aos que colhem borboletas ao alvorecer e sabem que a beleza é filha do silêncio.

Feliz Páscoa aos que garimpam utopias nos campos da miséria e trazem seus corações prenhes de indignação, sem jamais olvidar o próximo como seu semelhante. E aos que, montados na indiferença, atropelam delicadezas, até que a dor lhes abra a porta do amor.

Feliz Páscoa aos que nunca fecham a janela ao horizonte, regam suas raízes e não temem pisar descalços a terra em que nasceram. E aos que se embriagam de chuvas, ofertam luas à namorada e fazem da poesia a sua lógica.

Feliz Páscoa aos colecionadores de araucárias, que enfeitam de sonhos suas florestas e, na primavera, colhem frutos de plenitude. E aos que brincam de amarelinha ao entardecer e desconfiam dos adultos exilados da alegria.

Feliz Páscoa aos que se repartem nas esquinas, distribuem aos passantes moedas de sol e, nada tendo, nada temem. E aos que, ao desjejum, abrem sua caixa de mágoas e recontam uma a uma, gravando nos cadernos do afeto dívidas e juros.

Feliz Páscoa aos que caminham sobre tatames e, por terem muita pressa de chegar, jamais correm. E aos navegadores solitários, pilotos cegos e peregrinos mancos, que se arrastam pelas trilhas da desesperança.

Feliz Páscoa aos políticos obrigados a inventar, para os outros, o futuro que não se deram no passado, e estendem sorrisos para mendigar votos. E aos que não se deixam iludir pela insipidez da política e nem atiram seus votos na lixeira do desinteresse, alimentando ratos.

Feliz Páscoa aos trovadores de esperanças, aos fazendeiros do ar e aos banqueiros da generosidade, que sabem tirar água do próprio poço. E aos que mantêm em cada esquina oficinas de conserto do mundo, mas desconhecem as ferramentas que arrancam as dobradiças do egoísmo.

Feliz Páscoa a quem seqüestra o melhor de si, escondendo-o nas cavernas de suas mesquinhas ambições, sem coragem de pagar o resgate da humildade. E aos que nunca banem do espírito a presença de Deus e fazem da vida uma or/ação.

Feliz Páscoa às bailarinas fantasiadas de anjos que sobem, na ponta dos pés, a curva policrômica do arco-íris, e aos palhaços ovacionados que, no camarim, se miram tristes no espelho, vazios da euforia que provocam.

Feliz Páscoa aos que descobrem Deus escondido numa compota de figos em calda ou no vaga-lume que risca um ponto de luz na noite desestrelada. E aos que aprendem a morrer, todos os dias, para os apegos de desimportância e, livres e leves, alçam vôo rumo ao oceano da transcendência.

• Frei Betto é escritor



quarta-feira, 20 de abril de 2011

MUDAR

Clarice Lispector (colaboração da leitora Cláudia Valéria)


" Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.

Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.

Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.

Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros,
Viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.

Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.

Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.

Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado...
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.

Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes
.

Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.

Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.


E aproveite para fazer uma viagem
despretensiosa,
longa, se possível sem destino.


Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.

O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda !

Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!!!! "



segunda-feira, 18 de abril de 2011

PAIXÃO DE CRISTO DE RECIFE

foto: Wellington Dantas

A Paixão de Cristo do Recife 2011, em seu décimo quinto ano consecutivo, é o espetáculo símbolo da fé de sua enorme plateia, mais de 100 mil pessoas a cada ano. A montagem, também reconhecida como “A Paixão de Todos” por ser inteiramente gratuita, festeja ainda os 34 anos do ator, diretor, dramaturgo e iluminador José Pimentel vivendo o mesmo personagem teatral ininterruptamente, Jesus Cristo, um recorde para a história do teatro brasileiro, além dele comemorar 43 anos na direção de um mesmo espetáculo. Antes, a partir de 1969, em substituição ao então diretor Clênio Wanderley dentro das muralhas da recém-construída Nova Jerusalém, inaugurada um ano antes, no Brejo da Madre de Deus e, desde 1997, no Recife, com a sua “Paixão de Cristo do Recife”.

As apresentações deste ano acontecerão de 20 a 24 de abril, de quarta a domingo desta semana, sempre às 20h, gratuitamente, na Praça do Marco Zero. Com duas horas de duração, “A Paixão de Todos” baseia-se nos últimos momentos de vida do homem que mais pregou o amor ao próximo, e é assim que a história verídica do Filho de Deus, com várias licenças poéticas do autor José Pimentel (como o encontro de Cristo com Marta no calvário, irmã de Maria, personagem especialmente criado para a atriz Geninha da Rosa Borges), vem servindo para alimentar ainda mais de emoção e fé milhares de espectadores.

Pessoas de todas as idades, vindas de diversos bairros da Região Metropolitana do Recife, de cidades do interior e, também, de estados vizinhos (o que é cada vez mais crescente) têm marcado presença nesta verdadeira celebração da fé e da arte do teatro. A mega montagem conta com nove cenários, criações do cenógrafo Octávio Catanho, distribuídos por toda a extensão do Marco Zero, sem que seja necessário o deslocamento do público; e a única ascensão no país a trazer o Cristo subindo aos céus com os pés à mostra e o corpo levitando literalmente.

No elenco, grandes intérpretes do teatro pernambucano como Vanda Phaelante (Maria), Ivo Barreto (Judas Iscariotes), Geninha da Rosa Borges (Marta), Reinaldo de Oliveira (Herodes), Octávio Catanho (Pilatos), Renato Phaelante (Caifás), Paula de Renor (Maria Madalena), Didha Pereira (José de Arimatéia), Leidson Ferraz (Demônio de Judas), Manoel Constantino (Anjo), Ana Cláudia Wanguestel (Demônio 01), Cleusson Vieira (Elifas), Nelson Pontes (Príncipe), Sérgio Gusmão (Demônio do Horto), Isa Fernandes (Verônica), Buarque de Aquino (Pedro), Roberto Emmanuel (João), Aurinete Pimentel (Herodíades), Normando Roberto Santos (Gestas, o mau ladrão), Marcos Macena (Anás), Célio Pontes (Nicodemus), Pedro Dias (Dimas, o bom ladrão), Socorro Rapôso, Romildo Moreira e Cida Duarte, entre os 100 atores, além dos 300 figurantes; mais de cinqüenta técnicos; um corpo de baile sob o comando da coreógrafa Mônica Lira; e uma trupe de artistas circenses sob direção de Amália Trindade – com números de acrobacia, pirofagia e malabares. A produção executiva é dos produtores José Pimentel, Antônio Pires, Octávio Catanho e Paulo de Castro, com realização da APACEPE (Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco) e Centro de Diversidade Cultural Teatro Armazém.

A “Paixão de Cristo do Recife” conta com patrocínio do Sabão Ala, Governo do Estado de Pernambuco e Prefeitura do Recife, com apoio da Chesf, CNI/Sesi, Sesc, Cepe, BPM, Virtual e TV Globo.

Maiores informações: (81) 3082 2830 / 3423 3186.

Contatos: José Pimentel 9977 3739 ou 3423 3186 (à tarde) ou Paulo de Castro 3082 2830 ou 9168 8753.

domingo, 17 de abril de 2011

NAS ENTRELINHAS DA ESMOLA

Pr. Adriel Henrique

Certo dia foi oferecido a uma pessoa que não vem usufruindo dos direitos da sua cidadania, uma atividade que lhe renderia como recompensa uma gratificação de R$ 15,00 (quinze reais). A atividade era simples e requeria pouco tempo. Porém a pessoa recusou. Ela se justificou dizendo que, mesmo parada, sem fazer nada, apenas pedindo esmola, ela ganhava muito mais.

O episódio citado lembra a música “Vozes da Seca” de Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Esta música fala dos efeitos negativos que as ausências (água, comida, cidadania, emprego) podem provocar na vida de um cidadão. A canção diz que a esmola pode ser prejudicial. Pois assim diz a letra: “Mas doutô uma esmola a um homem qui é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.”

Penso que a primeira etapa da esmola seja sim a vergonha. Primeiro porque tenho visto os constrangimentos de algumas pessoas durante esta prática. E segundo porque muitas vezes ela não é praticada como o evangelho instrui, ou seja, com descrição e livre de interesses (Mt 6.2-4). Passada a vergonha, vem o vício. Um olhar crítico logo revelará que a esmola é uma grande indústria. Pois muitos dos que pedem esmolas são pessoas aposentadas. Já outras são pessoas saudáveis e capazes para o trabalho. Infelizmente assim como o álcool e as drogas, a esmola vicia, sim, sinhô. A esmola ainda provoca a exploração de crianças, doentes, portadores de deficiências e idosos.

Todavia é bom que se diga também que a falta de trabalho produz e alimenta a prática da esmola. Isto é muito preocupante, pois o trabalho começa a entrar em extinção, como pontuam alguns sociólogos. Entre estes destaco o meu amigo pastor, professor e sociólogo Eliab Barbosa Gomes que tem alertado sobre essa tendência. Se você não sabia, fique sabendo que sem o trabalho não se pode ser feliz. Sem o trabalho há fome e choro. Pois “um homem se humilha se castram seu sonho. Seu sonho é sua vida e vida é trabalho... E sem o seu trabalho o homem não tem honra. E sem a sua honra, se morre, se mata” (Gonzaguinha).

Pois é, muitos se tornam mendigos por causa da falta de trabalho. É por isso que na canção “Vozes da Seca” os autores sugerem quatro ações que podem livrar os seres humanos (os sertanejos, os nordestino) desta prática. A primeira ação é que as autoridades deem serviço ao povo; a segunda é que se contruam barragens; a terceira é que o alimento tenha um preço bom e justo; a quarta é que se criem mais açudes. Lembrem-se de que a água no sertão representa vida e trabalho.

Sendo pretensioso ou não, eu gostaria de confirmar a palavra de Deus na palavra da irmã Bete da Igreja Batista em Bultrins - Olinda – PE. Igreja esta que fiz parte do seu colegiado pastoral por cinco anos. A irmã Bete, depois que ouviu o Padre Reginaldo Veloso VII Fórum Popular de Reflexão Teológica de Bultrins, se expressou assim: “Fico feliz em saber que há pessoas como o senhor, padre, que ajudam a comunidade a se ajudar. Mas me chateio profundamente quando vejo grupos de religiosos que entram em nossa comunidade [na Favela Vila Esperança] para nos trazer cestas básicas. Como se isto resolvesse nossos problemas. Precisamos de grupos interessados em nos ajudar, ensinando-nos uma profissão. Fazendo-nos trabalhadores, e não pedintes.”

Depois de ouvir a Palavra de Deus na palavra dos pobres, representada pela nossa irmã Bete, eu gostaria de terminar este texto citando parte de uma bela canção, que diz: “É! A gente quer viver pleno direito. A gente quer viver todo respeito. A gente quer viver uma nação. A gente quer é ser um cidadão. A gente quer viver uma nação” (Gonzaguinha). Amém?

Pr. Adriel Henrique é Pastor e atualmente na Igreja Batista da Cohab.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

ELEGIA PARA O PADRE HENRIQUE

Celina de Holanda


De vários modos digo Jesus Cristo
desde os Apóstolos, incluindo Judas
aos mártires da América Latina
digo Henrique, quilômetros de amigos
acompanhando-o como ao Senhor-Morto.
Depois Frei Tito, finalmente livre
ao escreverem: Mártir!

Sofro o teu silêncio, meu amigo
obediente irmão das coisas vivas
como São Francisco, Ghandi ou Bernanos
como o Papa João, o que sabia
não representar em tudo Jesus Cristo.
Que as instituição não mudam,
apenas vestem as roupas de outros dias.

O MEDO E A FALTA

Ronaldo Cunha Lima


Você me traz medo,
mas você me faz falta.

A diferença entre o medo e a falta
é que o medo você sabe quando tem,
e na falta você sente que não tem.

A falta, com o medo, sobressalta.

Entre o medo que você me traz
e a falta que você me faz,

você é o medo que me falta.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

MIRÓ, O POETA DE MURIBECA

TRÊS POEMAS DE MIRÓ


FILOSOFIA PRA PULAR

Por trás de um ônibus lotado
E uma cadeira vazia
Há sempre um grande vômito.


CARLA

Conheci Carla catando lata
Seus olhos brilhavam como alumínio ao sol
São Paulo ardia num calor de quase
quarenta graus
Pisou na lata como pisam os policiais
Nos internos da Febem
Jogou no saco
Com a precisão que os internos jogam
monitores dos telhados
E rápido foi embora
Tal qual seqüestro relâmpago
Deixando a lembrança
De um tempo que não havia seqüestros,
Febem
Nem tanta polícia
Muito menos catadores de lata
Os olhos de Carla
Nem desse poema precisavam.


CORRENDO O RISCO

Quem na verdade risca nosso destino?
Estará Deus por trás de tudo isso?
Com Bic?

Grafite?

Pintando oito vezes o teu nome na
Pedra da solidão?
Vejo tanto lirismo por trás dos teus óculos.
Será Deus daltônico?
Talvez esteja aí o mistério de tantas óticas
Na Conde da Boa Vista.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

IRENE, ELA E O MONGE

Roberto Menezes, em 9/4/11


Livre da prisão de convento

Eu,um monge do deserto

vou caminhando contra o vento

vivendo a vida à míngua

no desejo de encontrar

a mulher da foto e sua língua

que tanto prazer me dá.

Num oásis só miragem

termino a minha viagem

ao vê-la com saia curta

coxas, peitos e “aquilo”

nome dado por Drummond

em “A Moça Mostrava a Coxa”

e se o poeta maior falou “daquilo”

por que não posso falar ?

Não sei fazer poesia

mas sei tirar “daquilo”

o cheiro de maresia

que todo “aquilo”tem.

E rolamos por areias escaldantes

língua com língua

mordidas, gritos lancinantes

minha barba fazendo cócegas

“naquilo” que o Drummond falou

e o cheiro de peixe e mar

por perto

onde não havia mar

só areia e deserto.

Saciados nos abraçamos

ela se veste e se vai

some a miragem, fico eu,só

com o cheiro de mar e peixe

que meu corpo impregnou

mas agora ser monge é pouco

pois lembro outro poeta

que cantou no seu desterro

“eu quero ir minha gente

Eu não sou daqui

Eu não tenho nada,nada

Quero ver Irene dar sua risada”.

Cravo as unhas na areia

vou onde ela está,não erro

e da areia desenterro

Irene, velha metralhadora

que sorri, cuspindo bala.

E eu vou me sentir inteiro

monge ,tuareg, guerrilheiro

que depois de fazer o amor querido

com a mulher amada

vingo o meu povo oprimido

faço Irene dar risada.


*Roberto Menezes é jornalista e cineasta

COMISSÃO SETORIAL PARA LITERATURA

Colaboração: Fernando Farias, da UBE.

Na noite da última terça-feira, o atual coordenador de Literatura da Secretaria Estadual de Cultura, o escritor Wellington de Melo, convocou os agentes da cadeia do livro da Região Metropolitana do Recife, ao Teatro do Arraial, para apresentar as propostas de políticas públicas na área de literatura. Na reunião, Wellington enfatizou a importância da constituição de uma Comissão Setorial de Literatura, grupo que congregaria representantes do que definiu como os elos da cadeia do livro (criativo; produtivo; distribuidor; e mediador). A exposição de Wellington de Melo baseou-se nas diretrizes já existentes do Plano Nacional do Livro e Leitura. Segundo o novo coordenador, além de parcerias com instituições públicas e privadas, a coordenadoria deve se basear nas articulação com os eixos da política pública de cultura de Pernambuco e ações baseadas nas escutas de fóruns regionais e da comissão setorial. “Não concebo política pública que não leve em consideração o eixo editorial. Mas não para publicar um Wellington de Melo ou um Fernando Farias, mas para publicar o escritor do Sertão do Moxotó, que permanece desconhecido. Vivemos um momento em que a literatura do estado precisa ser mostrada: há uma gama de novos escritores, teóricos, produtores, que precisam de leitores, isto, claro, sem esquecer da tradição já firmada. Estou aberto ao diálogo, enfatizou Wellington.

Propostas

Durante a reunião, também foram levantadas propostas que reforçaram a importância da representatividade da cadeia produtiva; da recuperação dos espaços de fomento e ações de literatura; a constituição de um calendário articulado aos ciclos tradicionais de Pernambuco; ações de interiorização; novos editais (como a residência de literatura para escritores e críticos); e a sistematização do cadastro de atores da cadeia.

Um dos presentes na reunião, o jornalista, crítico e pesquisador Cristiano Ramos apontou para a necessidade de superar modelos que separam o fomento da leitura do da produção. “Penso que chegamos a um ponto em que a discussão não é mais escolher quem privilegiar, o leitor ou o escritor, mas como as coisas dialogam entre si”, sugeriu.

A Coordenadoria de Literatura integra a Diretoria de Políticas Culturais, chefiada por Carlos Carvalho. A diretoria é um braço da Secretaria de Cultura do estado, hoje sob gestão de Fernando Duarte.

terça-feira, 5 de abril de 2011

JABOATÃO TERÁ A SUA FEIRA LITERÁRIA

Poeta Miró, de Muribeca, Jaboatão dos Guararapes.

Jaboatão dos Guararapes anuncia a realização da I Feira Literária de Jaboatão dos Guararapes, FLIGUARA. Será realizada no período de 28/04 à 01/05, no Parque Histórico Nacional dos Guararapes. A referida Feira fará parte da extensa programação da Festa Cultural da Pitomba de 2011. Dentre as novidades programadas para Feira Literária - Fliguara teremos: Oficinas (Poesia, Conto e Crônica), paletras, mesa redonda, bate papo literário, recitais, exposição e feira de livros das principais editoras do estado. Estão sendo contactados vários escritores que farão parte da programação da Fliguara, entre eles, Ariano Suassuna, Raimundo Carrero, Juareiz Correya, Douglas Menezes, Miró, Antonio Campos, Marcus Accioly, Jessié Quirino, entre outros. Várias temáticas serão abordadas, algumas já podemos adiantar como o centenário de nascimento do poeta Benedito da Cunha Melo, arte e cultura para todos, a poesia pernambucana, a importância do Conselho de Cultura e a discussão sobre a fundação da Academia Jaboatanense de Letras. A Produção Executiva da Fliguara será da Secretaria de Desenvolvimento Social/Bagaço, a Coordenação ficará a cargo da Secretaria Executiva de Cultura e Eventos e tendo como Curadores o poeta Natanael Lima Jr, Prof. Nildo Barbosa e a Diretora de Cultura Celinha Varejão. Em breve comunicaremos a todos a programação definitiva da Fliguara/2011.

VIVA A NAU CATARINETA EM TERRITÓRIO DA CIDADANIA

Cena de "Viva a Nau Catarineta", pelo Grudage

Com recursos do Ministério da Cultura, Funarte, através do Prêmio Funarte Artes cênicas na Rua 2010 o Grupo da Gente – Grudage, do Cabo de Santo Agostinho leva o seu espetáculo “Viva a Nau Catarineta”, de Altimar Pimentel, direção de José Manoel, para 7 cidades de Pernambuco, como parte do Projeto “Viva A Nau Catarineta em território da cidadania”.

o espetáculo já passou pela cidade de CORTÊS no dia 03 e tem seu calendário para as outras cidades : dia 10 SÃO JOSÉ DA COROA GRANDE, 24 GAMELEIRA, em MAIO dia 01 – JAQUEIRA, 08 – MARAIAL ,15 – BONITO , 22 - XEXÉU

As apresentações serão nas principais praças e logradouros para um público pouco afeito aos espetáculos teatrais, pois estas são cidades que raramente recebem grupos e que mantém uma produção rarefeita de espetáculos.

A proposta do Grupo é de participar mais ativamente do processo de difusão e acessibilidade às artes por parte de um público que tem poucas oportunidades e por este motivo escolheu estas cidades, afinal, o Cabo de Santo Agostinho é, das cidades da Região Metropolitana do Recife, a mais próxima.

“Viva a Nau Catarineta” trata do tema dos desbravamentos, dos descobrimentos e das relações de poder. Um grupo de marujos é convocado para empreender uma viagem rumo aos mares desconhecidos para enfrentar os inimigos e fazerem valer a imagem e o poder do império. Sem ser didática, mostra como um povo despolitizado pode ser facilmente manipulado pelos arbítrios.

O espetáculo tem músicas e direção musical de Osvaldo Costa, cenários, figurinos, máscaras e adereços de Síntia Alves, produção executiva de Edinilson Oliveira e tem no seu elenco Gilson Paz, Jailson Vidigal, Joan Artur, Adones Diordigues, Edinilson Oliveira, Síntia Alves, Ginaldo Glennar, Belle Nascimento, Titica Alves, Valmir Guilhermino e Marcelo Rhushanski. A música é ao vivo, executada pelo elenco e por Osvaldo Costa e Flávio Nascimento.

domingo, 3 de abril de 2011

ACL VISITA FILHO DO POETA THEO SILVA


1) Iede, neta de Theo Silva, ladeada por Theo Filho e Frederico Menezes.
2)Theo, filho do poeta THEO SILVA

Frederico Menezes, Jairo Lima e Antonino Oliveira Júnior, membros da Academia Cabense de Letras, visitaram, neste sábado, 2 de abril, a família do grande poeta Theo Silva, um doa patronoa da Academia. No bairro de Jardim São Paulo, o grupo foi recebido pela família de Theo Silva Filho, que colocou-se à disposição da Academia no que for preciso para que se concretize o resgate de importantes figuras do universo literário do Cabo de Santo Agostinho.

No mês de maio, a Academia Cabense de Letras deve homenagear o THEO SILVA, que é um dos seus Patronos, dentro do Projeto Sexta de Letras na sua versão 2011, que acontece na Câmara de Vereadores, sempre na primeira sexta-feira de cada mês.

O encontro aconteceu na residência de Theo Filho, com toda a família reunida, por toda a manhã do sábado. No final, a família cedeu alguns documentos do poeta Theo Silva e fotos, que serão usados no livro sobre a Obra do poeta, a ser editado e lançado pela Academia Cabense de Letras.

Além de confirmarem presença no dia da homenagem a THEO SILVA, Theo Filho e familiares deixaram claro a intenção de retribuirem a visita dos acadêmicos, inclusive, para conhecerem a Praça que leva o nome do grande poeta THEO SILVA, que faleceu aos 42 anos de idade, em acidente de trem, na cidade de Carpina.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

MINHA MÃE PRETA

Frederico Menezes*

Todas as quintas feiras vou visitar minha mãe preta. Eu tinha dias de nascido quando ela chegou para ajudar minha mãe nos cuidados com os nove filhos. Isso mesmo, nove filhos. Garota, cuidou particularmente de mim. Afeiçoamo-nos intensamente. Não lembro daquele tempo inicial mas tanto ela como outras pessoas afirmavam que ela fazia os meus gostos de ficar no braço. Ela teve que se afastar durante um tempo de casa após vários anos pertencendo à nossa família. Adoeci.
Tive febre. O médico, após examinar-me, pediu que a chamássemos com urgencia. Eu precisava de minha querida mãe preta.

Ela se chama Augusta. Agitada e simpática. Hoje caminha sentindo o peso dos anos. Sinto nela, no entanto, o portento da reencarnação, dos amores que se vestem de colorido diferente mas que são os mesmos amores. Nos chamamos, às vezes, de "tiririca", o mato que corta. Noto o quanto seus olhos brilham ao me ver. Vejo o quanto se sente orgulhosa quando chego em sua humilde casa e almoço. E me leva até a rua quando me despeço, feliz, mostrando às pessoas de sua vizinhança o quanto eu não a esqueci. E quanto a amo.

As lágrimas brotam quando escrevo sobre ela. São lágrimas de gratidão e sincera ternura. Minha mãe preta. É preta mesmo, nada de afrodescendente. Isso perde a poesia e a intimidade. Suas mãos parecem se iluminar ao fazer a comida deliciosa. Diz ela que sabe o que eu e meus irmãos gostamos. E agora sabe tambem o que gostam minhas filhas. Minha eterna mãe preta Augusta, um grande amor, que vale um lindo romance.

*Frederico Menezes é da Academia Cabense de Letras.

Comentário: Fred, não contive as lágrimas ao ler sua declaração de amor pela nossa babá. Todos os outros irmãos chorarão também, tenho certeza. (Antonino Oliveira Júnior)

quinta-feira, 31 de março de 2011

UM PENSAMENTO DE DOM HELDER CÂMARA


“O segredo de ser jovem –

mesmo quando os anos

passam, deixando marcas

no corpo – é ter uma

causa a que dedicar

a vida.”

RELÓGIO DE PONTO

Alberto da Cunha Melo

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim os jogos,
a poesia, todos os pássaros,
mais do que tudo: todo o amor.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e atravessaremos os córregos
cheios de areia, após as chuvas.

Se alguma súbita alegria
retardar o nosso regresso,
um inesperado companheiro
marcará o nosso cartão.

Tudo que levamos a sério
torna-se amargo. Assim as faixas
da vitória, a própria vitória,
mais do que tudo: o próprio Céu.

De quando em quando faltaremos
a algum compromisso na Terra,
e lavaremos as pupilas
cegas com o verniz das estrelas.