quarta-feira, 16 de junho de 2010

SÃO JOÃO COM CHEIRO DE POVO




Começa nesta sexta-feira, às 18 horas, em Muribeca, a programação oficial do São João de Jaboatão dos Guararapes. O Governo Municipal, através da Secretaria de Cultura, preparou um vasto programa tendo por base as manifestações populares que fizeram dos festejos juninos uma das marcas da cultura popular nordestina.

Desfile de carroças ornamentadas, Bacmarteiros, cortejo de Quadrilhas Matutas, Pau-de-Sebo, procissão profana com a bandeira do Santo, forró pé-de-serra, muito forró. Daí em diante, a festa toma conta do município.

DIREITOS AUTORAIS & ECONOMIA CRIATIVA



Antonio Campos*

O século 21 é marcado por uma transição para a era da economia do conhecimento. A riqueza revolucionária da 3ª Onda, defendida por Alvin Toffer, é cada vez mais baseada no conhecimento e está muito associada à tecnologia. O Brasil pode ser o melhor dos Brics, através do fortalecimento da economia criativa. Transformar inventividade em competitividade. A tendência é aumentar a riqueza gerada pela economia baseada no desenvolvimento das indústrias culturais e de criatividade. A revisão da legislação que envolve o direito autoral é um importante instrumento para o desenvolvimento dessa economia criativa no País.
Em 1998, quando a Lei dos Direitos Autorais foi promulgada, o Brasil vivia um cenário completamente diferente do que temos agora. As novas formas de mídias sociais, sites de compartilhamento de arquivos e todas as novidades tecnológicas fizeram dos dias de hoje diferentes dos que vimos há cerca de dez anos. Ferramentas como a internet, pen drives, mp3, iPods, leitores digitais, CDs e DVDs modificam as maneiras mais tradicionais de disseminar conteúdos e produções artísticas.

Nesse descompasso entre a atual lei autoral brasileira e a nova realidade do mundo digital, é que esta é considerada a quarta pior lei do mundo pela ONG Consumers International IP Watch List. Ela limita excessivamente o acesso do consumidor para o uso privado e não comercial, conhecido nos Estados Unidos como uso justo. Na lei atual, não há permissão, por exemplo, para cópias de livros didáticos cujas edições já se esgotaram.

Atento a essa nova realidade, o Ministério da Cultura discute, desde 2005, a possibilidade de revisar a Lei de nº 9.610/98 que regulamenta o direito autoral, devendo o anteprojeto de reforma entrar em breve em consulta pública no site do MinC.

A busca por mais estabilidade entre o direito do autor e os direitos do cidadão comum para acessar a educação, cultura, informação e conhecimento; o aperfeiçoamento do trato legal entre o autor e editoras/gravadoras e a regulação/fiscalização eficaz do direito autoral são apontadas pelo diretor de Direitos Intelectuais do MinC, Marcos Souza, como as principais razões para a reforma.

O desequilíbrio nos contratos entre gravadoras e compositores, que privilegia demasiadamente a livre negociação contratual merece mais atenção. É necessária uma regulação e supervisão mais eficazes das sociedades de gestão coletiva a fim de criar critérios mais justos e transparentes na distribuição de direitos autorais.

É fato que a lei dos direitos autorais precisa se moldar às novas tendências e formato do mundo globalizado. Afinal, essas mudanças não têm volta. A grande questão do processo de mudança na legislação é garantir um maior debate com os compositores, escritores e produtores culturais para um arcabouço jurídico que proteja os direitos do autor, mas que crie mecanismos que permitam uma maior democratização do acesso ao conhecimento do cidadão comum e o desenvolvimento da economia criativa.

*Antonio Campos é Escritor e Advogado.

VOU-ME EMBORA PRO PASSADO



Jessier Quirino

Vou-me embora pro passado
Lá sou amigo do rei
Lá tem coisas "daqui, ó!"
Roy Rogers, Buc Jones
Rock Lane, Dóris Day
Vou-me embora pro passado.
Vou-me embora pro passado
Porque lá, é outro astral
Lá tem carros Vemaguet
Jeep Willes, Maverick
Tem Gordine, tem Buick
Tem Candango e tem Rural.
Lá dançarei Twist
Hully-Gully, Iê-iê-iê
Lá é uma brasa mora!
Só você vendo pra crê
Assistirei Rim Tim Tim
Ou mesmo Jinne é um Gênio
Vestirei calças de Nycron
Faroeste ou Durabem
Tecidos sanforizados
Tergal, Percal e Banlon
Verei lances de anágua
Combinação, califon
Escutarei Al Di Lá
Dominiqui Niqui Niqui
Me fartarei de Grapette
Na farra dos piqueniques
Vou-me embora pro passado.
No passado tem Jerônimo
Aquele Herói do Sertão
Tem Coronel Ludugero
Com Otrope em discussão
Tem passeio de Lambreta
De Vespa, de Berlineta
Marinete e Lotação.
Quando toca Pata Pata
Cantam a versão musical
"Tá Com a Pulga na Cueca"
E dançam a música sapeca
Ô Papa Hum Mau Mau
Tem a turma prafrentex
Cantando Banho de Lua
Tem bundeira e piniqueira
Dando sopa pela rua
Vou-me embora pro passado.
Vou-me embora pro passado
Que o passado é bom demais!
Lá tem meninas "quebrando"
Ao cruzar com um rapaz
Elas cheiram a Pó de Arroz
Da Cachemere Bouquet
Coty ou Royal Briar
Colocam Rouge e Laquê
English Lavanda Atkinsons
Ou Helena Rubinstein
Saem de saia plissada
Ou de vestido Tubinho
Com jeitinho encabulado
Flertando bem de fininho.
E lá no cinema Rex
Se vê broto a namorar
De mão dada com o guri
Com vestido de organdi
Com gola de tafetá.
Os homens lá do passado
Só andam tudo tinindo
De linho Diagonal
Camisas Lunfor, a tal
Sapato Clark de cromo
Ou Passo-Doble esportivo
Ou Fox do bico fino
De camisas Volta ao Mundo
Caneta Shafers no bolso
Ou Parker 51
Só cheirando a Áqua Velva
A sabonete Gessy
Ou Lifebouy, Eucalol
E junto com o espelhinho
Pente Pantera ou Flamengo
E uma trunfinha no quengo
Cintilante como o sol.
Vou-me embora pro passado
Lá tem tudo que há de bom!
Os mais velhos inda usam
Sapatos branco e marrom
E chapéu de aba larga
Ramenzone ou Cury Luxo
Ouvindo Besame Mucho
Solfejando a meio tom.
No passado é outra história!
Outra civilização...
Tem Alvarenga e Ranchinho
Tem Jararaca e Ratinho
Aprontando a gozação
Tem assustado à Vermuth
Ao som de Valdir Calmon
Tem Long-Play da Mocambo
Mas Rosenblit é o bom
Tem Albertinho Limonta
Tem também Mamãe Dolores
Marcelino Pão e Vinho
Tem Bat Masterson, tem Lesse
Túnel do Tempo, tem Zorro
Não se vê tantos horrores.
Lá no passado tem corso
Lança perfume Rodouro
Geladeira Kelvinator
Tem rádio com olho mágico
ABC a voz de ouro
Se ouve Carlos Galhardo
Em Audições Musicais
Piano ao cair da tarde
Cancioneiro de Sucesso
Tem também Repórter Esso
Com notícias atuais.
Tem petisqueiro e bufê
Junto à mesa de jantar
Tem bisqüit e bibelô
Tem louça de toda cor
Bule de ágata, alguidar
Se brinca de cabra cega
De drama, de garrafão
Camoniboi, balinheira
De rolimã na ladeira
De rasteira e de pinhão.
Lá, também tem radiola
De madeira e baquelita
Lá se faz caligrafia
Pra modelar a escrita
Se estuda a tabuada
De Teobaldo Miranda
Ou na Cartilha do Povo
Lendo Vovô Viu o Ovo
E a palmatória é quem manda.
Tem na revista O Cruzeiro
A beleza feminina
Tem misse botando banca
Com seu maiô de elanca
O famoso Catalina
Tem cigarros Yolanda
Continental e Astória
Tem o Conga Sete Vidas
Tem brilhantina Glostora
Escovas Tek, Frisante
Relógio Eterna Matic
Com 24 rubis
Pontual a toda hora.
Se ouve página sonora
Na voz de Ângela Maria
"— Será que sou feia?
— Não é não senhor!
— Então eu sou linda?
— Você é um amor!..."
Quando não querem a paquera
Mulheres falam: "Passando,
Que é pra não enganchar!"
"Achou ruim dê um jeitim!"
"Pise na flor e amasse!"
E AI e POFE! e quizila
Mas o homem não cochila
Passa o pano com o olhar
Se ela toma Postafen
Que é pra bunda aumentar
Ele empina o polegar
Faz sinal de "tudo X"
E sai dizendo "Ô Maré!
Todo boy, mancando o pé
Insistindo em conquistar.
No passado tem remédio
Pra quando se precisar
Lá tem Doutor de família
Que tem prazer de curar
Lá tem Água Rubinat
Mel Poejo e Asmapan
Bromil e Capivarol
Arnica, Phimatosan
Regulador Xavier
Tem Saúde da Mulher
Tem Aguardente Alemã
Tem também Capiloton
Pentid e Terebentina
Xarope de Limão Brabo
Pílulas de Vida do Dr. Ross
Tem também aqui pra nós
Uma tal Robusterina
A saúde feminina.
Vou-me embora pro passado
Pra não viver sufocado
Pra não morrer poluído
Pra não morar enjaulado
Lá não se vê violência
Nem droga nem tanto mau
Não se vê tanto barulho
Nem asfalto nem entulho
No passado é outro astral
Se eu tiver qualquer saudade
Escreverei pro presente
E quando eu estiver cansado
Da jornada, do batente
Terei uma cama Patente
Daquelas do selo azul
Num quarto calmo e seguro
Onde ali descansarei
Lá sou amigo do rei
Lá, tem muito mais futuro
Vou-me embora pro passado

IMPORTANTE

terça-feira, 15 de junho de 2010

E BETÂNIA ESCOLHEU O MELHOR



Antonino Oliveira Júnior*

Era uma vida de agonia. Nem sei se o pobre do Zé Carlos podia chamar aquilo de casamento, de vida em família. Eram só os três: ele, Valéria e a pequenina Betânia, uma pureza de menina gerada nos raros momentos de harmonia entre eles. O dia de força e de muito suor desprendidos no trabalho deveria ser compensado por uma boa acolhida no retorno ao lar. Mas que compensação que nada! Em casa a vida se torna um inferno, de tanta reclamação de Valéria.

-Falta as coisas dentro de casa e você ainda chega com fedor de bebida!!!

Por mais que ele tente argumentar, as coisas pioram. Sábado passado largou de meio-dia e saiu prá tomar uma com os colegas e em vez dos 250 reais da quinzena, só chegou com duzentos. Entrou no racha, né? Tinha que ser, porque todo mundo da turma é pobre feito ele. E tome reclamação, tome esculhambação...e quando ele queria argumentar, vinha forte da boca de Valéria: PALHAÇO! Você não passa de um palhaço...

A raiva subiu à cabeça, mas a decepção era ainda maior. Só restou pegar a mãozinha macia de Betânia e sair com ela a passear. Chegou no meio da rua e ainda deu tempo de ouvir, mais uma vez, o sonoro “PALHAÇO”, repetido inúmeras vezes, ante os olhos assustados da pequena Betânia, sua filha amada.

Era quase quatro da tarde e eles saíram sem rumo, até encontrarem o pequeno circo na beira da estrada. Era o chamado “pano-de-Roda”, como é conhecido aquele circo que não tem cobertura. Ingresso barato, Zé Carlos e Betânia logo tomaram assento na perigosa arquibancada, também conhecida como “poleiro”.

O Cospe-fogo, o equilibrista, o homem que atirava facas na mulher encostada na tábua, a dançarina de barriga pendurada e a saia bem curta, aparecendo a calcinha (um desastre). Mas tinha o Fedegoso, um palhaço de fazer rir até defunto. Porque circo mambembe é assim mesmo, pode nada prestar, mas o palhaço é sempre muito bom. Foram quase duas horas de muita risada e muita gritaria da platéia, na maioria das vezes, vaiando. E Betânia se acabando de sorrir, sentada em seu colo, vez em quando apertando a sua barriga num abraço. Saiu até um saco de pipoca e um pirulito para ela, era o que dava para ele comprar.

Na volta prá casa, Betânia em seus braços, dormindo, ele cansado, pensando em quantas vezes ainda escutaria Valéria chamar-lhe de palhaço. Mais de dois quilômetros com o peso duplicado de sua pequena Betânia, criaturinha de apenas cinco anos de idade. Uma vez em casa, não deu outra:

-Fosse prá onde com a menina, que passou da hora da bichinhaa tomar café? Tu só pensa em tu, né, palhaço?

Quase não dava prá segurar, mas, ficou calado e foi no quarto, colocar a sua Betânia na cama. E o fez com zelo, carinho e ternura. Ao dar as costas para sair do pequeno quarto, ouviu a doce voz de Betânia a chamá-lo:

-Painho, eu gostei muito do circo. Mas o que eu mais gostei mesmo foi do palhaço...

Voltou-se, beijou-lhe a testa e deu um leve sorriso para ela, acompanhado de um “boa noite”. Lá fora, nem ligou mais para os gritos de Valéria a chamá-lo de palhaço.

Afinal, Betânia já tinha feito sua escolha...


*Antonino Oliveira Júnior é membro da Academia Cabense de Letras.

ILUSÕES DO AMANHÃ



Esse poema foi escrito por um aluno da APAE, chamado, pela sociedade,
de excepcional. Excepcional é a sua sensibilidade! Ele tem 28 anos,
com idade mental de 15.
PRÍNCIPE POETA (Alexandre Lemos - APAE)

'Por que eu vivo procurando um motivo de viver,
Se a vida às vezes parece de mim esquecer?
Procuro em todas, mas todas não são você.
Eu quero apenas viver, se não for para mim que seja pra você.
Mas às vezes você parece me ignorar, sem nem ao menos me olhar,
Me machucando pra valer.
Atrás dos meus sonhos eu vou correr.
Eu vou me achar, pra mais tarde em você me perder.
Se a vida dá presente pra cada um,
o meu, cadê?
Será que esse mundo tem jeito?
Esse mundo cheio de preconceito.
Quando estou só, preso na minha solidão,
Juntando pedaços de mim que caíam ao chão,
Juro que às vezes nem ao menos sei, quem sou.
Talvez eu seja um tolo,
Que acredita num sonho.
Na procura de te esquecer,
Eu fiz brotar a flor.
Para carregar junto ao peito,
E crer que esse mundo ainda tem jeito.
E como príncipe sonhador...
Sou um tolo que acredita, ainda, no amor..'

segunda-feira, 14 de junho de 2010

SONHO MEU



Roberto Menezes

Pretenso poema de um fígado em pânico
Roberto Menezes – 23.04.2010, seis da manhã.


Eu vivo num tempo de guerra
Eu vivo num tempo de merda
Dizem que a História acabou
E só ficou a História do Olho
Que Georges Bataille contou
O olho que não é o do BigBrother
E sim o olho por onde sai a merda
Recebe tempo de merda
Todo desprezo que se encerra
No meu peito senil
Vai dizer aquela ingrata
Que não tenho mais amor a oferecer
A amargura do ódio
Fez a paixão fenecer
Beira-Mar, ê ê,Beira-Mar
Caboclo espírito enfezado
Vendo a morte chamada de vida
Dá o grito de guerra
E encerra:
“Tá tudo dominado!”
Uma mãe acalenta um filho
sem cabeça
Chovem ossadas mil
São os filhos do Brasil
Morte inútil, abestalhada
Saindo à força deste mundo
Enquanto o povão toma no fundo
Enquanto grita a plenos pulmões
“Campeões do Mundo”!
Esmagam-se culhões
Trovejam canhões
E as bucetas das meninas sem lares
Viram depósito de esperma constante
Para quem tem dólares
E mora distante
Pra que prantear o Che,
Procurar desaparecidos,
Pra encontrar o que , o quê?
O esqueleto dos sonhos perdidos?
Somos putos e putas
Prostituídos nessa terra canalha
Onde a canção se espalha
Chamando de amada terra
Esse país bundão de Sarney,Renan & Cia.
Que não valem o que o gato enterra
Pra frente Brasil
Vai mais pra frente um pouquinho
Olha pro céu, meu amor
Vê como ele tá lindo
Você olhando pra ele
Não vê que está caindo
Sem nenhum abalo, nenhum sismo
No lugar que sempre nos esperou
O maior de todos os abismos
Politicamente correto
Negro não é mais negro
Cego não é mais cego
Nego não é mais nego
Sim não é mais sim
Não me entrego é m'entrego
Morte agora é vida
E até Branca de Neve
Terá que dar sete trepadas constrangidas
Com sete criaturas
Verticalmente reprimidas
Anão? Mais não!
É aí que mora o perigo
Na frase feita colonizada
Como “discutir a relação”
Até que dois corpos tombem
De ódio e de exaustão
Exerço aqui o direito
De quem tem quase 100 anos
De quem lutou, amou e sofreu
No PCB, Dissidências, PQP
Pra só encontrar o que era mesmo pra encontrar
o óbvio e os óbitos ululantes
pelos cinco mil alto-falantes
Dessa terra descoberta por Cabral
Beira-Mar, ê,ê, Beira-Mar
Fim de Papo
Pro ar

MEU POEMA NÃO FAZ SILÊNCIO



Natanael Lima Jr


Meu poema jamais faz silêncio

e a ninguém cabe calá-lo

trago-o como herança que me mantém aceso

como esta voz que traduz a dor dos injustiçados.



Meu poema jamais faz silêncio

e a ninguém cabe calá-lo

trago-o como navalha que corta e dilacera

o curso provinciano das horas.



Meu poema não faz silêncio

porque é feito de palavra vigorosa

e despojado de qualquer retórica rançosa

e leviana.



Meu poema não faz silêncio

porque é feito de palavra que nomeia

a palavra que traduz

a palavra que semeia.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

CINE TEATRO APOLO



Teatro Cinema Apolo : “mais novo” com 96 anos


JUAREIZ CORREYA /
Ex-presidente da Fundação Hermilo
(juareizcorreya@hotmail.com)

O Governo Eduardo Campos reabriu, ontem, dia 9 de junho - 131º. aniversário de emancipação do Município dos Palmares -, o Teatro Cinema Apolo, sede da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, patrimônio estadual pernambucano tombado pela FUNDARPE na última década do século passado. Restaurado e reformado, neste ano do seu 96.o aniversário de fundação (datada de 6/dezembro/1914), o Teatro Cinema Apolo volta à atividade, no município dos Palmares, para servir novamente ao desenvolvimento cultural dos palmarenses e dos cidadãos da região Mata Sul de Pernambuco. É o seu destino, espaço cultural irradiador da vida artística local desde a segunda década do século passado e que, após um breve período de inatividade, ameaçado de fechar e de se transformar em um banco, igreja evangélica ou loja de eletrodomésticos, foi salvo, em 1983, para a perenidade da sua história, pela ação empreendedora do então prefeito Luiz Portela de Carvalho, ao adquirir o edifício para a Prefeitura dos Palmares com o objetivo de transformá-lo em sede da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, criada em seu governo.

Hoje, faltando 4 anos para completar um século, o Teatro Cinema Apolo está “novinho em folha”, para alegria e orgulho dos palmarenses e das comunidades da região. A sua reforma e melhoria é uma obra garantida pela competência técnica da FUNDARPE, patrocinada pelo PROMATA – Programa de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável da Zona da Mata de Pernambuco / Secretaria Especial de Articulação Regional / Governo de Pernambuco, em convênio com o Banco Mundial. Os investimentos - na ordem de R$ 1. 900.000, 00 - foram devidamente aprovados “de acordo com a louvável iniciativa da Comissão Temática de Cultura do PIM – Programa de Investimento Municipal, do PROMATA - Palmares, em 2003. Aprovado o projeto nesse tempo, só o atual Governo Eduardo Campos é que viabilizou o empreendimento”, como já tivemos oportunidade de registrar em artigos publicados no Diário de Pernambuco (“O Apolo, Hermilo, Arraes e Eduardo”, de 31/julho/2008, e “O Governo de Pernambuco e a Fundação Hermilo”, de 11/junho/2009).

Vale a pena ressaltar, por uma questão de respeitosa justiça, a decisiva participação de educadores, poetas, músicos, artistas plásticos e cênicos, e artesãos palmarenses que integraram a Comissão Temática de Cultura do PIM, do PROMATA - Palmares, lutando pela reforma e melhoria do Teatro Cinema Apolo (fechado por causa do desabamento de parte da sua coberta, em 2001), em sua histórica ação no ano de 2003 : José Rodrigues de Lima, Silvana Maria do Nascimento, Ginaldo Napoleão de Barros, Zé Ripe, Miriam Santos de Lima, Edna Santos de Lima, Gleide Vasconcelos Silva, Maria José Balbino, Deny César, Sandro Ricardo Agrelli e este articulista, então presidente da Fundação Hermilo.

Agora reaberto em festa mais do que justificada dos governos municipal e estadual, o Teatro Cinema Apolo, com certeza, voltará à cena cultural de Palmares e de Pernambuco com as suas atividades naturais de teatro e de cinema, em seu palco aberto também para a dança e para a música, e promovendo, em seu privilegiado auditório, palestras, debates e encontros culturais que reflitam o seu importante papel de teatro mais antigo do Interior do Estado e de sede da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho, a primeira fundação cultural criada no Interior de Pernambuco. Uma instituição municipal que, por suas ações abrangentes, já representa a cultura de toda a região Mata Sul pernambucana.

*Juareiz Correya é poet
a

quarta-feira, 9 de junho de 2010

LANÇAMENTO DE LIVRO




Acontece hoje o lançamento do Livro "ANTOLOGIA POÉTICA" , de Geraldino Brasil, no Centro Cultural Correios, das 19 às 21 horas. O local do evento fica na rua Marquês de Olinda, 262, Recife antigo. Vale a pena conferir.

terça-feira, 8 de junho de 2010

A CULTURA ALIMENTAR JUDAICA EM PERNAMBUCO




Acontece nesta terça-feira, 8 de junho, das 18 às 20 horas, o lançamento do Livro "A CULTURA ALIMENTAR JUDAICA EM PERNAMBUCO", de Beatriz Schvartz, Daniel Breda e Tânia Kaufman. O evento acontece na Sinagoga Kaal Zur Israel, na rua do Bom Jesus, no Recife antigo.

A Obra trata do mundo da gastronomia no judaismo e suas particularidades religiosas e culturais em Pernambuco, nos séculos XVI, XVII e XXI.

EU QUERIA QUE FOSSE UM SAMBA - KKKKKKKK



(Uma brincadeira de sábado à noite)
*Antonino Oliveira Júnior

Mal a noite desperta,
Você logo me acerta
e reinventa a ordem
do tempo para os que dormem...

Como esquecer a morena
Tão boa de fazer pena
Prá quem sonha com seus beijos
E leva a vida em desejos?

Dei bobeira e cochilei
Depois de sentir prazer,
Não vi o dia nascer,
Passei a mão no vazio
Não tinha corpo na cama
E de resto só a mancha
Daquilo que registrou
A noite de tanto amor...

Sentado pus-me a pensar
Naquele corpo marrom,
Naquela pele macia
Da mulata que deixou
Em mim uma lapa de dor,
Que não tem choro que acabe
E fechou meu coração
Prá não ter nova paixão
E nem querer outro amor.

*Antonino Oliveira Júnior é membro da Academia Cabense de Letras e da Igreja Batista da Cohab.

NACOS DE UNIVERSO



Natanael Lima Júnior*

Um sonho
e uma realidade:
nacos de universo,
constelações
aos ombros,
infinito.

Um sonho,
um campo, uma rocha,
pés que sangram,
andrajos de gente,
sombra amorfa.

Um sonho,
uma canção, um poema,
pedaços de existência,
imortalidade à venda
por dívida.

Todo o meu universo
é palavra,
nenhum astro me preside
e sou eterno.

Meu sonho
é não parar de sonhar
e me exaurir de viver.

*Natanael Lima Júnior é membro da Academia Cabense de Letras

segunda-feira, 7 de junho de 2010

NEM UMA BALA PERDIDA


NEM UMA BALA PERDIDA
Roberto Menezes


Noite de domingo passado, 30 de agosto. Ele chegou à TV Bandeirantes em São Paulo num jipe tipo militar. O jipe estava cheio de adesivos: "EnDIREITA BRASIL", "GENERAL HELENO ESTAMOS COM O SENHOR", "ARMAS NÃO MATAM PESSOAS.PESSOAS MATAM PESSOAS".
O "Canal Livre", da Band, entrevistou ao vivo, com muita competência e profissionalismo, uma das mais execráveis figuras da história brasileira: o Cabo Anselmo.

Cabelos brancos e finos, fala mansa e ar de vítima, Cabo Anselmo não se abalou nem quando falou da mulher grávida, a bela e valente Soledad: assassinada, enquanto seus protetores o levavam para o aeroporto. Adeus, Recife. O sangue nas mãos se lava com os lenços perfumados dos banheiros de avião. Lá embaixo, jovens mortos com 14 tiros na cabeça cada um (um número cabalístico?). E Soledad entre eles, com o filho que nasceria dentro de dois meses. O filho de Cabo Anselmo.

Janeiro de 1973. Demissão de toda a redação da sucursal Recife do Jornal do Brasil, inclusive o diretor Bernardo Ludermir. O interventor Amaury Mattos alegava interesses comerciais que a empresa JB queria ampliar em Pernambuco e nossas matérias negativas prejudicavam. Inclusive aborreciam os usineiros (porque davam voz aos trabalhadores do campo) e aos militares (porque mostravam o Nordeste que eles queriam ocultar). Eu era o Chefe de Redação, substituindo Nagib Jorge Neto, demitido um mês antes.

Na saída do jornal, para onde não voltaria mais, o motorista José Félix me entrega um bilhete de uma moça. Era a companheira Rildete, do PCB, marcando um encontro. Morena alta, esguia, entre 22 anos e 24 anos, nariz graciosamente arrebitado, olhar suave, fala doce, uma das autênticas militantes do verdadeiro movimento revolucionário: o que queria um Brasil socialista. Nunca soube seu verdadeiro nome. E ela me conhecia como Pedro.

Encontramos-nos na sala de espera do Cinema Glória, no bairro de São José. Um cinema de filmes pornôs onde homens lotavam a sala para transar com outros homens enquanto o sexo explícito corria solto na tela. Não sei se ainda hoje é assim. A sala de espera, com um sofá e duas poltronas, ficava vazia. O fuc-fuc era lá dentro.

Eu e Rildete pudemos conversar tranquilamente. Para quem nos visse, era um rapaz feio e magro como um poste, acertando preço com uma jovem e bela prostituta, das muitas que rondavam o cinema Glória.

Rildete fulminou de cara: "A gente não vai mais se ver. Ou talvez por muito tempo. Vou passar para guerrilha”. Retruquei que ela pensasse bem. O povo brasileiro tinha fraca consciência política, a ditadura estava jogando duro com os mitos do nacionalismo e tinha todo o apoio da mídia que o povo vê, ouve e lê. Era preciso organizar antes todas as camadas sociais e apostar na luta pela democracia. Tem que ser um amplo movimento, nunca a iluminação de grupos isolados.

Rildete disse que o irmão dela tinha morrido a três meses num choque com as forças de repressão. E ela estava convencida de que a morte dele negava o Brasil alienado para afirmar o Brasil dentro de uma pátria maior, latino-americana.

Agora, entre os gemidos eróticos que vinham de dentro do cinema, eu olhava Rildete e me vinha na cabeça à personagem da tragédia grega Antígona, de Sófocles. Para enterrar o irmão e mostrar a injustiça das leis, Antígona caminha para a morte. Para reviver o irmão e revelar a injustiça e a criminalidade dos poderosos, Rildete como Antígona, já estava "do outro lado".

Sem perder a suavidade, era só a força da escolha. E sem perder a doçura, a voz tinha o timbre da decisão. O olhar e a voz de Antígona quando desafia Creonte que a condenara. E que marcha altiva, para a sepultura, na peça de Sófocles.

Fevereiro, 1973. Dez dias antes que eu partisse para Salvador (que será tema de outro artigo que envolve muitos jornalistas pernambucanos), e de lá para a Argentina e o Chile de Allende, soube pelo companheiro Resende que Rildete estava morta. Duas balas, uma em cada olho, uma bala na testa, outra na nuca.

O olhar da Antígona pernambucana deve ter ofuscado seus assassinos.

Tudo isso me passava pela cabeça ao ver Cabo Anselmo elogiar o profissionalismo policial do coisa ruim Sérgio Fleury, confirmar que realmente guardava poemas que Fleury fazia entre uma e outra sessão de tortura.

Fleury tanto torturou Frei Tito que o frade exilado na França, se matou. Deixando escrito que não conseguia esquecer, dia e noite, o rosto do Mal em Si, o rosto de Fleury, protetor do Cabo Anselmo.

Cabo Anselmo disse na TV que não lhe restava opção. Fleury foi direto: ou colabora com a gente, ou morre, desaparece. Será que isso deu poema? Os tenebrosos poemas do Mal em Si?

E quantos sofreram e não delataram? Temos o exemplo da Dilma Rousseff, apontada nos relatórios da CIA, como a Joana D’Arc brasileira: 22 dias consecutivos de choques elétricos e outros tipos de tortura. E não confessou nada, nem delatou ninguém, segundo os relatórios dos próprios agentes dos Estados Unidos.

E o pior dedo-duro da história brasileira, ainda ficou amigo pessoal até hoje, do policial Carlinhos Metralha, um dos maiores participantes na repressão e assassino de militantes de esquerda.

Cabo Anselmo quer indenização e reaver sua identidade, seu RG. Ele negou qualquer compromisso com o jipe cheio de adesivo, mas admitiu que logo que recobrasse a "cidadania" poderia escolher o campo ideológico.
Escolher o que, traidor? Fique tranqüilo, Cabo Anselmo. Você vai reaver sua identidade, vai receber uma boa grana, vai poder andar na rua e fazer o proselitismo das idéias dos seus "grandes amigos", que são também as suas idéias.

Imaginem uma Dilma Rousseff ou uma Marina Silva no governo, batendo de frente com os grupos que sempre roubaram o Brasil e são os responsáveis pela miséria da maioria dos brasileiros.

Cabo Anselmo estará no Congresso como deputado, eleito com a força da grana dos amigos torturadores e assassinos? Ou vai continuar oculto, conspirando para derrubar Dilma ou Marina, acabar com as organizações populares, exterminar os comunistas, e ajudar os norte-americanos que querem implantar uma base militar no Recife, depois da Colômbia. Enfim, vai realizar o grande objetivo de enDIREITAR de vez o Brasil?

Vendo aquele símbolo da morte e da traição, me lembrei da Antígona guerrilheira, a querida companheira Rildete, que nos deixou tão cedo, da solidão de Soledad morrendo com o filho na barriga, o filho do "homem" que a delatou. E senti vergonha de estar vivo, de usar da lógica medrosa e do "bom senso" para tentar convencer uma companheira que resolvera fazer a travessia para um ideal maior.

No Brasil de hoje, as balas parecem querer sair sozinhas das armas. Milícias, traficantes, assaltantes, matadores de mendigos, casais que se matam, jovens que se matam, balas perdidas à procura de corpos desatentos. Nunca se matou tanto como no Brasil de hoje.
As armas fumegantes parecem atender à inquietação das balas.

Mas Cabo Anselmo continua vivo.


* Roberto Menezes é jornalista.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

PROJETO DA ACADEMIA DE LETRAS



Arte do Cartaz: Acadêmico Jairo Lima.

A Academia Cabense de Letras está chegando mais perto da população. A partir de 2 de julho acontece o Projeto Sexta de Letras, reuniões públicas na primeira sexta-feira de cada mês, com recitais, palestras e debates sobre autores e obras literárias. O projeto vai acontecer na Câmara de Vereadores do Cabo, às 19 horas, aberto ao público.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O ARAUTO DE CRISTO


O ARAUTO DE CRISTO
Antonino Oliveira Júnior (Ao Pastor Erivaldo Alves)

O seu andar simples,
A sua vida despojada,
O seu abraço sincero,
O sorriso abrangente,
Expressam a humildade
De quem traz as boas novas,
A palavra que soa doce,
O acalanto que acolhe.
De sua vida descalça
Brotam gestos
Que nos falam de amor,
De um amor que enraíza
E dá seiva e força à sua árvore,
A árvore de seu rebanho.
Mas, dessa vida descalça
Brotam gestos outros
Que falam de amor,
De um amor que acolhe,
Que dá sombra e frutos
Aos que perecem sob o sol escaldante
Das injustiças, da sede e da fome
De água, de comida e de Deus.
De sua vida descalça
Brotam gestos
Que nos falam de amor
Do amor dos arautos
Das Boas-Novas,
De Jesus Cristo.

CHEGA DE SAUDADE


DOUGLAS MENEZES

Tenho pra mim que o termo saudade será banido dos dicionários mais modernos. Os tempos de hoje não permitem a vivificação do passado. Os jovens se envergonham de lembrar o ontem. Ou algo que se distanciou no tempo. É como se a vida só contasse a partir do agora. Talvez até o vocábulo” hoje” seja eliminado, dando lugar ao "amanhã“ como forma de indicar o presente. Pois vivemos o momento em que perenidade e eterno passaram a ser adjetivos puramente descartáveis. O invento mais recente já se tornou obsoleto dias depois. Sim, dias depois. A era de informática não permite longevidade..

Se o tempo não pára, como diz o poeta (graças a Deus ainda existe poeta), lamentamos o fato de que as novas gerações se orgulhem da ausência de lembranças que irriguem o presente. Viver de novo. Achar que valeu a pena momentos idos e vividos, mesmo aqueles não muito agradáveis. Mesmo os dolorosos que traumatizam e nos fazem sofrer de novo, mas que dão experiência e calo emocional para o presente e futuro.E aí, não são apenas as frustrações que se impõem. Pois temos, com certeza, marcas cujo sentido faz com que a existência não seja em vão. Lembra bem o poeta Caetano Veloso: avancemos, sem esquecer a tradição.

O saudosismo, claro, não deve guiar os passos da humanidade. É ruim, também, aferrar-se ao pretérito, demonstrando inércia e atraso. A roda da vida continua a girar. Mas é bom pensar no que já foi. Alivia um pouco a dureza do cotidiano.

Rodando, então, em sentido contrário . O girar do tempo: o primeiro beijo, o rubor na face da timidez em excesso. A deslumbrada visão da mulher nua pela primeira vez, o toque , e o estremecimento de um pecado maior. A bola de couro: um presente de ouro. A rua das brincadeiras sem fim: barra bandeira, quatro cantos, mocinho e bandido. As peladas intermináveis no quintal. O medo da surra e das doenças do mundo. Dissecar cada coisa dessa é recriar um mundo. Triste do homem que não tem nada pra contar. Sua história só vale se ele tiver história.

Então, meio triste, com pena até dos nascidos hoje, que vêem a vida como tão-somente um momento. Meio triste, sinto saudade. Saudade de ter saudade.


*Douglas Menezes é membro da Academia Cabense de Letras



terça-feira, 1 de junho de 2010

SEXTAS DE LETRAS

Este é o Projeto que a Academia Cabense de Letras anuncia para o segundo semestre. Sempre na primeira sexta-feira do mês, a partir de julho, acontecerá uma reunião da Academia,aberta ao público, com palestras, debates e recitais.
A reunião será sempre na Câmara de Vereadores do Cabo de Santo Agostinho, a partir das 19 horas e em cada noite do projeto, um dos acadêmicos será responsável pelo desenvolvimento do tema da noite, com a partiicipação dos demais membros nas discussões e no recital que deverá acontecer no momento.

UMBERTO ECO: O FIM DOS LIVROS?




UMBERTO ECO: O FIM DOS LIVROS?

Antônio Campos

A obra Não contem com o fim dos livros, escrita pelo italiano Umberto Eco, foi lançada no Brasil em maio e faz uma análise da existência do livro na atualidade. A ideia da morte da literatura clássica e o pretenso fim dos livros são duas das maiores obsessões de Umberto Eco. Esses temas transformaram-se em livro a partir de uma parceria com o ensaísta francês Jean-Claude Carrière e organização do jornalista Jean-Philippe de Tonnac.

Escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo, Eco é um estudioso das falhas humanas. Fascinado pela má-fé e pela estupidez, o italiano acredita que o erro sempre aponta para algo que não devemos esquecer para ressaltar a verdade. Para ele existem apenas duas diretrizes no cenário literário: ou o livro permanecerá sendo o suporte da leitura, ou existirá alguma coisa similar, que não fará o mesmo perder seu valor original.

As variações em torno do livro enquanto objeto não modificam sua função, nem sua construção gramatical. O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados. Não é possível que uma colher seja melhor que outra. Segundo Eco, quando imaginamos ter ingressado na civilização das imagens, surgiu o computador, que nos reintroduziu na galáxia de Gutenberg, na era alfabética. Com o advento das novas tecnologias, todos se viram predestinados a ler de uma maneira nova.

Na obra recém-lançada Carrière e Eco dizem estar mais preocupados com a extinção do presente do que com a suposta ameaça ao livro, pois acreditam que nós vivemos espremidos entre uma obsessão pelo futuro e um passado que nos alcança a toda velocidade.

Ao proferir uma palestra na atual Biblioteca de Alexandria, Umberto Eco já defendia, desde 2002, que a expansão da Internet não ameaça a existência dos livros. O escritor italiano falou sobre os três possíveis tipos de memória: orgânica, mineral e vegetal. A orgânica é feita de carne e sangue e é administrada pelo nosso cérebro. A Memória mineral era, há milênios representada por tijolos de argila e por obeliscos, onde as pessoas entalhavam seus textos. Porém esse segundo tipo é também a memória eletrônica dos computadores de hoje, cuja base é o silício. O terceiro e último tipo de memória é a vegetal, representada pelos primeiros papiros e posteriormente pelos livros feitos de papel.

O filósofo acredita que a Biblioteca foi, no passado, e será, no futuro, dedicada à conservação de livros e que, portanto, é e será um templo da memória vegetal. As bibliotecas, ao longo dos séculos, têm sido o meio mais importante de conservar o nosso saber coletivo. “Uma biblioteca é a melhor imitação possível, por meios humanos, de uma mente divina, onde o universo inteiro é visto e compreendido ao mesmo tempo”, afirmou o grande pensador italiano.

No referido livro, Carrière fez um importante questionamento em relação ao valor que o presente deveria ter para o cotidiano das pessoas. “Onde enfiaram o presente? O maravilhoso momento que estamos vivendo e que diversos conspiradores tentam nos roubar?”. Com o excesso de informação da web em um mundo acelerado e entulhado, impõe-se a necessidade de uma espécie de edição do presente e o livro impresso é um grande parceiro nessa construção.

Eco e Carrière afirmam que é falsa a premissa de que o livro está com os dias contados. Não podemos usar um computador sem saber ler e escrever. A escrita é “um prolongamento da mão e, nesse sentido, é quase biológica”, afirmou o escritor italiano. No prefácio, o jornalista Jean-Philippe de Tonnac diz que “a cultura é muito precisamente o que resta quando tudo foi esquecido” e que o livro é a memória desse grande resto que nos constitui. O debate de Carrière e Eco com a mediação de Jean-Philippe de Tonnac é uma importante obra sobre o livro e o mundo contemporâneo.

Antônio Campos é Escritor e Advogado

segunda-feira, 31 de maio de 2010

SENTENÇAS



Alberto da Cunha Melo


Amor só é bom no começo
E não devia nunca
deixar de começar,
ser pura tentativa
e lingerie molhada
sob a mesa, no escuro
de tolerantes bares,
ser sempre essa mão
sem jeito, na hora,
de tocar a outra mão,
de chegar escondendo
humilhações do dia,
e nunca humilhar
quem dança sobre o muro,
a olhar com inveja
esse amor do presente,
sem saber que esse amor,
que é feito de começos,
não tem fim nem futuro.

Do livro: Clau (poemas)
www.trilhasliterarias.com

O ALEMÃO NEGRO

Roberto Menezes*


Jornal Nacional, 28 de abril. Uma notícia curta de Brasília: um homem de cabelos grisalhos, porte altivo, economista, que guardava em casa armas de todos os tipos. E a narração do locutor dizia que José Cândido do Amaral Filho confessou o assassinato a tiros de dois mendigos em Brasília, no dia 19 de janeiro, na mesma praça onde há 12 anos um índio pataxó foi queimado por cinco universitários. O criminoso disse que se sentia incomodado pela presença dos dois mendigos perto do seu prédio. Foi lá e atirou na cabeça dos dois. Notícia curta e grossa, sem nenhum comentário. O JN continua, mas com uma notícia otimista sobre a economia.
20 de novembro de 1995. Muito calor, céu nublado e desde nove horas da manhã, festa em Brasília. E era segunda-feira. Eu estava lá, com um só câmera e a esperteza da jornalista Edna Cristina, documentando a Marcha Zumbi dos Palmares Contra o Racismo, Pela Cidadania e a Vida. Uma homenagem aos 300 anos da morte de Zumbi, o líder da resistência à escravidão. Mais de 30 mil pessoas caminhando do Largo do Circular até a Esplanada do Planalto. Cabelos afros, maracatus, capoeiras, gente de candomblé, e toda a força e beleza da raça negra. Era uma coisa que só se via nos grandes comícios populares ou no carnaval da Bahia e do Recife. Carros de som, fantasias, alegria geral.

As condições precárias de filmagem impediam que o câmera sempre estivesse junto de mim. Mandei o câmera Renato Diehl fazer closes e gerais da Marcha e de meia em meia hora ele colaria comigo pra filmar uns planos especiais. No dia anterior, já tínhamos entrevistado lideranças negras, filmado num Salão de Beleza afro e feito algumas cenas no Teatro Nacional com um ator negro.

No meio da loucura, que é filmar uma passeata gigante com uma só câmera por falta de grana, topo com Edésio Alemão. Branco sarará, roupas puídas, sapatos abertos. Mendigo típico de Brasília era um dos mais animados da festa negra. Vez por outra recebia um empurrão dos seguranças negros para não se misturar com a massa organizada. Lá estava o Lula, que ainda não era presidente, de braços dados com Vicentinho e Edson Cardoso, o organizador do movimento. Num dos empurrões, Edésio Alemão veio bater junto de mim e me disse o nome. Cachaça já na cabeça, mas uma surpreendente lucidez nos pensamentos.

Perguntei de onde ele era, disse que de Sergipe. Viu o pai sair "pra ir colher borracha na Amazônia", o paraíso prometido pelo Presidente Getúlio Vargas. Borracha para os pneus dos aviões norte-americanos. Foi à última vez que Edésio Alemão viu o pai. Ele e a mãe ficavam esperando, e nada. A notícia que chegou é que ele pegou hepatite e febre amarela. Morreu no meio da mata. Seca em Sergipe, falta de terra pra plantar, a mãe caminhando com ele, os dois sozinhos, tanto sertão pela frente. Ela morreu quando ele tinha 11 anos. Edésio Alemão Ficou só no mundo.

Gritei pra ele interrompendo a dolorosa narrativa: "Cessa tudo que a antiga musa canta, pois um poder mais alto se alevanta!" Ele me olhou espantado e eu apontei para a Camila Pitanga que ia falar do alto do carro. O nosso câmera encostou e fizemos um belo enquadramento da Camila, linda como sempre, gritando para a multidão:" eu acredito que todos vocês aqui estão sentindo o que eu sinto: o orgulho de ser... negra! Eu tenho orgulho disso! Sou uma negra!”.
A multidão enlouqueceu. Ritmos do Norte se misturavam com o axé baiano e o maracatu pernambucano. Os gritos se tornaram mais forte: "Hoje é dia de negro/ queremos escolas, queremos emprego", "Palmares, Zumbi/ Assim eu resisti!”.

O nosso câmera saiu correndo para filmar um bando de crianças dançando.Puxei Edésio Alemão pra um canto . O nome dele era por causa dos olhos azuis e do cabelo sarará, alourado. Edésio foi adotado por um travesti, de quem mais tarde se tornaria amante. Depois não quis mais e saiu procurando o que fazer no Brasil. Não encontrou. Veio parar em Brasília, já envelhecido. Não sabia dizer a idade. Talvez uns 68 a 70 anos, calculei. Perguntei por que ele estava ali, insistindo em participar. A resposta anotei e guardo comigo. Como lembrança do filme que ia fazer com, ele, e nunca fiz.

-"Isso aqui é o Brasil mudando. O senhor não sabe o que eu, meu pai e minha mãe a gente passou na vida. A gente sabe o que é ser brasileiro. Por isso fico contente de ver gente negra e pobre como eu, um branco enganado pelo Brasil, protestando com a alegria de quem sabe que vai vencer.”.

Pensei no cangaceiro Corisco de Glauber Rocha: “Mais forte são os poderes do povo!" Pensei no pensamento do velho Graça, o grande Graciliano Ramos, que diz em "Vivente das Alagoas”: "talvez nos sobre ainda, por baixo do verniz da educação, aquela energia de Lampião. Apesar da fome e da verminose".

Minha proposta para Edésio Alemão: logo depois de montar o filme da Marcha Negra, fazer um filme com ele. Perguntei onde ele "se escondia". Respondeu: "não me escondo, me mostro. Sou uma ferida que não pode se esconder. Durmo na rua e Brasília tem que me ver, querendo ou não".
Anotei.

A festa negra só terminou quase dez da noite na Esplanada. Eu, Edna e Renato, a equipe brancaleone, estávamos exaustos. Uma lua cheia bonita iluminou Brasília. E de repente formou um halo na cabeça de uma figura que apareceu de repente. Ele mesmo, o Edésio Alemão. Cambaleando de bêbado. cantarolava engrolado a música de Gilberto Gil: :"branco se você soubesse /o valor que negro tem/ tu tomava banho de piche/ ficava negro também ".

Virei pro Renato: filma!Filma!Renato me disse: não tem mais fita e nem temos luz. E Edésio continuou a sua louvação ao Brasil em que ele finalmente acreditava : "somos crioulos doidos/somos bem legal/temos cabelo duro/somos bléque-pau" e agitava os dedos como se mandando uma mensagem de surra.

Passei cinco dias montando o filme, mais um sonorizando e mais um esperando para mostrar ao cliente, o Movimento Negro Unificado. As lideranças negras chegaram com caderninhos para anotar possíveis cortes. Ficaram emocionados e as páginas do caderno sem nenhuma anotação. Na saída da ilha de edição, um deles falou: tira a fala do Lula. Os outros concordaram. Perguntei por que e a resposta foi evasiva: pra ficar um pouquinho menor. Eu disse: "me engana que eu gosto". Eles riram.
E o futuro Presidente do Brasil, que tinha dado uma fala muito boa de braços dados com as lideranças negras, caiu fora do vídeo.

Uma semana depois da Marcha Negra e lá estou eu procurando Edésio Alemão. Rodoviária, Conjunto Nacional, Praça dos Três Poderes. Perguntei: ninguém lembrava ninguém sabia. Voltei à noite. Em que quadra ele teria ido dormir? Passei em frente ao busto de Zumbi. O herói de Palmares nada me disse. Mas o vigia do prédio em frente, sim. Chamou-me e perguntou se eu estava procurando o Alemão. Ele tinha me visto conversando com ele durante a Marcha e estava perto da equipe quando à noite mandei Renato filmar. O mulato Luciano, que trabalhava à noite, curtiu a festa popular o dia inteiro. E viu tudo na Marcha Negra.

Viu também a morte brutal de Edésio Alemão. Eu quis saber de detalhes. Ele disse que se escondeu de medo e viu toda a covardia. Dois brancos, "filhinhos de papai", segundo ele, chegaram num carrão. Um deles ficou olhando o movimento da rua vazia, às duas da madrugada. Edésio Alemão dormia aos pés do busto de Zumbi. O outro branquinho veio e deu um tiro na cabeça do mendigo, que estrebuchou. Saiu correndo e o que estava de vigia foi também pra perto de Edésio e deu outro tiro na cabeça, e outro nas costas. Correram para o carro, onde um motorista esperava. Arrancaram em alta velocidade.

O vigia disse que passou muito tempo tremendo, até criar coragem de ir para o orelhão e avisar pra polícia, sem se identificar. Meia hora depois, chegaram os policiais e recolheram o corpo. Eu disse que não tinha visto em jornal nenhum, embora no trabalho pesado de edição eu mal passava a vista nos jornais. Luciano, o vigia, disse que nem na rádio deu. A polícia se foi com o corpo. Ficou por isso mesmo: é coisa comum em Brasília, disse o vigia. "Foi num foi morre um pobre desses na rua. Não faz falta, né? É menos um na miséria".
Palavras literais de Antonio das Mortes no filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol". Menos um pra viver nessa miséria.

Olhei a lua minguando sobre a cidade indiferente. Edésio Alemão escapou da morte por subnutrição e das outras doenças tropicais. Veio morrer assassinado aos pés de Zumbi. Não viu o Brasil mudar. Nem nunca ia ver, mesmo se não morresse naquela madrugada.

14 anos depois, nada mais existe do branco que queria ser negro. Mas outros Edésios, brancos, negros, índios, mulatos, continuam morrendo. Assassinados em plena rua. Sem voltar dos sonhos que separavam um dia do outro, sempre igual. E Brasília apodrece. Há muito tempo. Lentamente, sob o sol dos trópicos, essa miss patrimônio cultural da humanidade está morrendo de câncer generalizado. O câncer do preconceito, da corrupção, da mentira e dos conchavos políticos. Tudo isso regado com bons uísques, finos vinhos, e o sangue dos mais pobres.

Este artigo dedico à memória da jornalista Edna Cristina Santos, que idealizou e realizou junto comigo o vídeo sobre a Marcha Negra. Minha grande amiga achou de morrer em Porto Alegre no dia do meu aniversário, há quatro anos atrás. De uma gripe que virou pneumonia.

*Roberto Menezes é Jornalista

NEOLOGISMO



Natanael de Lima Júnior

NEOLOGISMO


O poeta inventa palavras

e traduz sentimentos mais profundos

do cotidiano das horas.


Desenxerga o mais íntimo brilho da nudez

e mira à vista

desnudando em tez.


O poeta inventa sons

e produz ritmo

da disritmia do tempo.


O poeta desintegra verbos,

sujeitos e predicados.


O poeta inventa a vida.


*Natanael de Lima Júnior é membro da Academia Cabense de Letras

sexta-feira, 28 de maio de 2010

CARLOS PENA FILHO




Chopp
Carlos Pena Filho

Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora, às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim,
nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.
Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.
Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chopp,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados


SONETO DO DESMANTELO AZUL

Carlos Pena Filho

Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.


A SOLIDÃO E SUA PORTA

(a Francisco Brennand)

Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar,
(nem o torpor do sono que se espalha).
Quando, pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

FORÇA ESTRANHA



É hoje,na Livraria Saraiva, o lançamento do Livro "FORÇA ESTRANHA", de Nelson Motta. O evento acontece às 19 horas e a produção cultural é de Mônica Silveira. Vale a pena conferir.

MÃE


Gilson Peres*

Olhando para você
não sei se és
verde, branca ou azul,
finalmente, qual é a sua cor;

Olhando para você descobri
que apesar dos perigos
e mistérios,
viver vale a pena.

Olhando para você descobri
que devemos ser fortes,
nunca trazer dentro de nós
rancor de nada;
o que é ruim
devemos sempre
colocar para fora.

Olhando para você descobri
que devemos ser fortes;
só assim,
nada nos vencerá.

Olhando para você descobri
é uma onde
e que nesta onda
não devemos nos afogar.

*Gilson Peres é árbitro de futebol e Office-boy do Jornal Tribuna Popular.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Um Rito de Mães, Rosas e Sangue



Foto: Tuca Siqueira

Livre licença poética a partir das três tragédias rurais escritas pelo dramaturgo e poeta espanhol Federico García Lorca – “Bodas de Sangue”, “Yerma” e “A Casa de Bernarda Alba”. O resultado é um espetáculo ritualístico, a partir da figura da Mãe, personagem aglutinador das forças que regem a natureza. Dividida em três quadros, a encenação versa sobre uma mãe que desabafa após o infortúnio da morte do filho; outra mãe que, com mãos de ferro, condena suas filhas a um luto eterno, até que alguma delas se case; e, por fim, a mulher que busca incessante a maternidade. Dramaturgia e encenação: Claudio Lira. Elenco: Ana Maria Ramos, Auricéia Fraga, Andrêzza Alves, Daniela Travassos, Luciana Canti, Sandra Rino, Lêda Oliveira, Lano de Lins e Zé Barbosa. A montagem conquistou o Prêmio Myriam Muniz, da Funarte, e o Fomento às Artes Cênicas, da Prefeitura do Recife.

Em cartaz às quintas e sextas-feiras, até 02 de julho, às 20h, no Teatro Hermilo Borba Filho (tel. 3355 3321), no Recife (mesma avenida da Prefeitura, no Bairro do Recife). Ingresso: R$ 10 e R$ 5 (estudantes, professores com carteira e maiores de 60 anos). Informações: cflira@gmail.com

HINO DA LOJA MAÇÔNICA ALVORADA DA PAZ Nº 10


Letra: Antonino Oliveira Júnior

Somos todos felizes operários
Que trabalham na Oficina da vida,
Dedicando-se ao labuto dessa lida
Recebendo o amor como salários.

Nas agruras que eu sofro na procela,
Encontro a paz que o teu nome revela
E com o peito inflamado firme eu sigo
Com a força da acácia onde me abrigo

No horizonte és o alvorecer
De um dia diferente na cidade
Sob os raios de um novo amanhecer
Iluminada pelo sol da liberdade,
pelo sol da liberdade...


O esquadro e o compasso são o norte,
Igualdade junta-se à fraternidade,
Na busca incessante da liberdade,
E de uma sociedade justa e forte.

O Grande Arquiteto irradia
Uma fonte perene de energia
Transformando-nos em bálsamos de amor
Solidários ao irmão que sente dor

No horizonte és o alvorecer
De um dia diferente na cidade
Sob os raios de um novo amanhecer
Iluminada pelo sol da liberdade,
Pelo sol da liberdade...


Nossa história é a história do Brasil
De Pinzón a esse povo varonil,
Conspirando a liberdade em Pernambuco
Embalando os sonhos nobres de Nabuco.

No horizonte és o alvorecer
De um dia diferente na cidade
Sob os raios de um novo amanhecer
Iluminada pelo sol da liberdade,
Pelo sol da liberdade...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

MEMÓRIA DE UM JOVEM COMUNISTA


Roberto Menezes


Eu era bancário na cidade do Cabo de Santo Agostinho, a 30 quilômetros do Recife, onde nasci, cresci e estudei o ginasial. Tinha 19 anos e já dois anos de militância no Partido Comunista Brasileiro – o PCB .

Naquela noite de 30 de março de 1964, vieram dois companheiros do Recife, que sempre participavam das reuniões da célula cabense. Um deles, o mais radical, tinha o codinome de Américo, e anos depois deixou o Partidão e entrou na luta armada. O outro atendia pelo codinome de Nelson. Nunca soube que caminhos ele seguiu.
Decidimos não fazer reunião nem no Sindicato Rural, nem na casa de ninguém. A situação do país era grave e não se tinha uma visão exata da correlação de forças. Precisávamos discutir qual seria a nossa ação nos próximos dias. E a reunião teria que ser num lugar afastado e mais seguro.

Escolhemos a velha estrada que ligava a cidade à Destilaria Central Presidente Vargas.Na época, uma estrada de barro batido, cercada de mato, paralela à BR-101. Saímos andando, noite de lua clareando o caminho, e decidimos fazer a reunião debaixo de uma velha jaqueira. Uma árvore que tinha fama de mal assombrada e que ficava exatamente no meio da estrada,entre Cabo e Destilaria. Ali seria o lugar seguro porque todo mundo evitava passar pela jaqueira à noite.

Saímos da cidade e fomos andando até lá. Eu, Américo, Nelson, e mais três comunistas :o jovem Murilo Lages; o velho vendedor de jornal e antigo militante Manoel Amaro, que já tinha sido preso e torturado várias vezes pela polícia; e Luís de França, camponês de uns 50 anos, infiltrado pelo PCB nas Ligas Camponesas de Francisco Julião.

Na jaqueira, os companheiros do Recife explicaram a situação, que os militares estavam se rebelando contra o Presidente Jango e que o então Comandante do IV Exército, general Justino Alves Bastos, estava vindo de reuniões em Brasília e no Rio.

Acreditava-se que os mineiros e paulistas iam tentar derrubar o presidente João Goulart, mas o general Justino talvez defendesse a legalidade. O camponês Luís de França informou que o Sindicato estava cheio de caixas de bala, mas nenhum fuzil nem revólver. Os companheiros do Recife ficaram de ver isso e marcamos a próxima reunião para as duas da tarde do dia seguinte. Agora precisavam voltar para o Recife, pegando o último ônibus do Cabo para a capital.

De repente, uma voz rouca e possante, interrompeu a reunião, cantando : "Noite alta/céu risonho/ minha amada em doces sonhos" . Uma sombra saiu detrás da jaqueira e Américo, o mais radical, gritou :
-É uma alma!

Correu comunista pra tudo que é lado.

Era apenas um velho, talvez um mendigo ou até mesmo um camponês, que estava curtindo a bebedeira sentado no pé da jaqueira, do lado contrário ao lugar onde estávamos.

Acabamos de correr uns poucos metros e vimos o velho com seus trapos e um saco nas costas. Ficamos ofegantes e silenciosos, olhando pra ele. O velho nos acenou, dando um "cháu", como se diria hoje. E continuou andando na direção da Destilaria,enquanto nós voltávamos para a cidade. Ainda silenciosos.
A voz do mendigo ainda cortava o silêncio da estrada, com sua cantiga relembrando, quem sabe, uma mulher , antiga paixão que o deixou naquele estado decadente. Ou por causa de sua miséria não teve chance de participar dos sonhos da amada,como dizia a música.
Olhei pra trás e ainda vi a velha figura com seus trapos, cambaleando, num zigue-zague que não afetava seu vozeirão. Nesse instante, uma nuvem cobriu a lua e o velho bêbado sumiu na escuridão que tomou conta da estrada.

No outro dia, a escuridão mostrou que veio pra ficar. Não houve a nossa reunião. Ninguém veio do Recife, ninguém no Cabo sabia o que fazer. Tanques na rua, o bravo Gregório Bezerra arrastado na rua por uma corda como se fosse um bicho, Arraes prisioneiro no próprio Palácio do Campo das Princesas, Brizola pregando a resistência pela rádio da legalidade, prisões. O Presidente Jango deposto. Começava o golpe militar de 31 de março de 1964.

A noite continuou alta, como na canção do bêbado, mas o céu não era risonho. Era medonho. E a estrada por onde caminhávamos, mais escura ainda.

"Os acontecimentos daqueles dias / ainda estão claros na memória: / fechado no escuro do quarto, / querendo fugir do mundo que me chegava pelo rádio, / eu, pouco mais que um menino, / chorava, como se fosse morte, / a viagem-fuga do Presidente Jango. / Os anos passados, a maturidade / e a visão diária da injustiça e do ódio, / da opressão, da mentira e do medo / me levam agora, adulto, / em nome da verdade e da História, / a reafirmar o menino: / as lágrimas derramadas em 64 / continuam justas." ( Poema de Fernando Brant )

Um abraço para todos que me leram. E a minha saudade, com muita ternura, dos companheiros daquela reunião da jaqueira. Onde comunistas correram com medo de alma e a nuvem, cobrindo a lua, decretou uma noite quase interminável no Brasil.


POEMA A CÉU ABERTO



POEMA A CÉU ABERTO
Natanael Lima Jr


As noites passam ávidas.
Por vezes,
levianas, desregradas.

Algumas revelam
sombrias angústias
algemadas por paixões dissolventes.
Noutras se revelam
pálidas, inocentes, tímidas.

Por vezes as desejo
inúteis, insanas,
dominadoras, cruéis...

... e quando a noite cessa,
o poema se revela
a céu aberto.

*Natanael Lima Jr. é membro da Academia Cabense de Letras

SEJAMOS POSTOS DE VACINAÇÃO



A VACINA
Antonino Oliveira Júnior

O país vive um momento histórico, com a aprovação, por unanimidade, do Projeto FICHA LIMPA, que proíbe a candidatura de políticos condenados por roubo, corrupção ou outro crime contra a sociedade. Não resta dúvida de que estamos vendo algo marcante, ainda que tenhamos que nos deparar com o “jeitinho” que a Câmara dos Deputados tentou dar, agindo de forma que o processo andasse lentamente, ao ponto de não deixar poder valer para a eleição deste ano. Aprovado no Senado, segue para o Presidente Lula sancionar (ou não). E nós sabemos no que vai dar tudo isso, quando estiver em prática. E eles, os que estão em Brasília, no Congresso Nacional, também o sabem. E todos sabem que isso vai respingar nas Assembléias Legislativas, nos Governos de Estados, nas Prefeituras e Câmaras de Vereadores, ainda que saibamos que não concordemos com aquele pensamento de que “todos os políticos são iguais”. Existem, claro, os que são decentes, os que têm compromisso com o povo, eleitores seus ou não. Precisamos, ainda, destacar a atuação de entidades como a OAB, a CNBB, etc., que se dedicaram no recolhimento de assinaturas que exercem pressão sobre o Congresso Nacional, mandando para lá quase dois milhões de assinaturas de brasileiros que exigem a moralização da política no país, o fim da impunidade para os que têm mandato, a retirada dos reconhecidamente desonestos e que só enojam a todos os que não concordam com essa prática deplorável de roubar o bem público.

O “Ficha Limpa” pode ser um remédio para curar o mal que esses políticos fazem ao país, porém, entendemos e todos sabem, que vacinar é prevenir, é evitar que a doença chegue. As Igrejas, de todos os credos, a OAB, o Rotary, a Maçonaria, os Grêmios estudantis, os Sindicatos, etc., poderão ser transformados em Postos de Vacinação contra maus políticos, orientando e esclarecendo a população quanto ao perigo de se eleger candidatos viciados na compra de votos. Independente do “Ficha Limpa”, façamos a nossa parte, mostrando que aquele que compra votos, seja de forma direta ou através dos conhecidos “cabos eleitorais”, estarão, inevitavelmente, usando o mandato para retirar de volta o que gastaram na campanha. É a lei do mercado.

No momento em que o país homenageia Joaquim Nabuco, aproveitemos os meses que antecedem as eleições, para discutir com a população um de seus mais importantes pensamentos: “Acabar a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão”. É chegada a hora de lutarmos pela libertação do povo, arrancando-o das mãos poderosas e nefastas do que chegam ao Poder Político para saquear o patrimônio que a população construiu e mantém com o suor de seu trabalho e o pagamento de seus impostos.

É tempo de vacinar a todos, a partir dos 16 anos.

*Antonino Oliveira Júnior é membro da Igreja Batista da Cohab e da Academia Cabense de Letras.