quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

CARLOS DRUMOND DE ANDRADE



"A cada dia que vivo, mais me convenço
de que o desperdício da vida está no amor que não damos,
nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade".

Concordo com você,e é por isto que eu me arrisco tanto..
TE AMO...TE AMO...TE AMO...TE AMO...TE AMO...!!!!!!!!!!

CECÍLIA MEIRELES



SERENATA

"Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo"

FERNANDO PESSOA


Entre o sono e sonho

Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre
Esse rio sem fim.

VINICIUS DE MORAIS



Vinicius de Morais
SONETO DO AMIGO

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

MIRÓ - O POETA DA MURIBECA




MARGINAL RECIFE

Recife
Cidade das pontes
E das fontes da miséria
Poetas mendigando passes
Pra voltar pra casa
E sua poesia passando despercebida
Aliás,
Nem passa.

TÁ CHEGANDO O CARNAVAL - EVOÉ




Dia 11 de fevereiro acontece na cidade do Cabo de Santo Agostinho, o desfile do tradicional Zé Pereira de Vavá da Vaca, o mais antigo Bloco em atividade na cidade. A saída acontece às 20 horas, da Rua Dr. Inácio de Barros, centro da cidade, arrastando multidão de foliões, com Orquestra de Frevo no chão, o que expressa a autenticidade da agremiação carnavalesca cabense. Já falecido, o conhecido folião Vavá da Vaca, deixou nos seus filhos a mesma alegria e o compromisso com a manifestação cultural do carnaval de blocos.

OFICINA DE XAXADO


Acontece nesta quarta-feira, dia 3, às 18 horas,no Teatro Barreto Júnior do Cabo de Santo Agostinho, mais um oficina de Xaxado promovida pelo Ponto de Cultura Bacamarteiros: Tiro de Paz. É uma iniciativa da Sociedade dos Bacamarteiros do Cabo, em convênio com os Governos Estadual e Federal, sob a coordenação do poeta, artista plástico e membro da Academia Cabense de Letras, Ivan Marinho.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A ATUALIDADE PERPÉTUA DE PAULO




Desde que Ernest Renan fez publicar sua monumental e magnificamente escrita série de textos sobre as origens do cristianismo, em que lançou luz sobre sua figura, o fariseu Saul (com nome de rei tribal judeu) de Tarso saiu das sombras de uma posição subalterna no Novo Testamento para campos mais iluminados da reflexão filosófica. Embora tenha mantido incólume sua fama de prosador de indiscutíveis graça e qualidade, o francês é hoje submetido ao crivo das dúvidas em seus atributos de arqueólogo e historiador. De sua biografia de São Paulo, rebatizado após a espetaculosa conversão, ao cair do cavalo na estrada de Damasco, de perseguidor de cristãos a cristão perseguido, vêm a lume sinais de que este foi mais que o apóstolo dos gentios da tradição de uma das profissões religiosas predominantes no mundo pós-Império Romano. Mais que mártir ou autor das epístolas às comunidades cristãs primitivas mantidas no rito da missa 20 séculos depois, ele foi redescoberto como uma espécie de criador do Cristo, a mente poderosa que transformou o profeta simplório e taumaturgo popular na referência de uma civilização que dominaria os territórios conquistados pelas legiões romanas e as mentes e os corações que nelas têm habitado. O Paulo de Renan criou algo que viria a se chamar de Ocidente e foi o instaurador da Europa, continente que dizimou indígenas na América e tribos primitivas na África, deixando suas pegadas também pela Ásia anciã.

EPÍSTOLAS PAULINAS TRAZEM MAIS DO QUE A EVIDÊNCIA DO AMOR COMO NORMA DE VIDA

O filho do comerciante de tendas, que, segundo se desconfia, pode ter corrompido algum burocrata do Império para adquirir a condição de cidadão romano, judeu de origem e grego por vocação globalizante (ou seja, gregária), está descendo dos altares para conquistar a glória das cátedras. Nesta era globalizante, ele deixa a hagiografia para ocupar o panteão da filosofia, entrando pelo portal da ideologia. É possível argumentar que a simpatia dos comunistas pelas raízes da cristandade remonta às origens do marxismo: o parceiro financiador do velho barbudo, Friedrich Engels, tratou do tema comparando os cristãos primitivos com os pioneiros das comunas no século 19. Engels, contudo, não é filósofo que se leve a sério fora das hostes socialistas, ao contrário do francês Alain Badiou, autor do recém-lançado São Paulo: A Fundação do Universalismo (tradução de Wanda Caldeira Brant). Num texto erudito, claro e breve, este papa do pensamento da esquerda democrática contemporânea europeia resgata o papel fundamental que o apóstolo peripatético e distribuidor de cânones para os prosélitos da nova religião na Ásia Menor e no centro do Império teve na fixação de nossa vocação para cidadãos do mundo.

Com a honestidade intelectual dos devotos da lógica e da transparência, capazes de ler além dos próprios limites e raciocinar acima dos preceitos, o autor encontra nas epístolas paulinas mais que as evidências da instauração do amor como norma de convívio e sobrevivência da condição humana. O célebre trecho da carta aos coríntios, em que o missivista indica ao homem antigo a porta de saída de sua renitente crosta de egoísmo bárbaro, usando o convívio harmonioso com o outro como senha de acesso à civilização, compõe um conjunto de ideias fundadoras. Coerentes entre si, tornam a palavra paulina essencial, conforme Badiou, para a compreensão dos enigmas que ora tentamos decifrar.

Mais até que o universalismo do discurso do apóstolo, citado no título do ensaio, fascina o filósofo francês a atualidade do pregador globe-trotter de 2 mil anos atrás. Ele encontra essa contemporaneidade “perpétua” no estilo e até no universo vocabular empregados nas epístolas, que, segundo o consenso arqueológico, precedem historicamente os Evangelhos e os outros textos do Novo Testamento. Por mais escassas que sejam as linhas das cartas chegadas até nós hoje em dia, nelas predomina, conforme Badiou, “sob o imperativo do acontecimento, algo vigoroso e atemporal, algo que, precisamente porque se trata de destinar um pensamento ao universal em sua singularidade nascente (o grifo é do autor), mas independentemente de qualquer particularidade, nos é inteligível sem termos de recorrer a pesadas mediações históricas (o que está longe de ser o caso de diversas passagens dos Evangelhos, para não falar do opaco Apocalipse).”

Pier Paolo (que não se perca pelo nome) Pasolini, grande cineasta (diretor do vigoroso O Evangelho Segundo Mateus), definido por Badiou como “um dos maiores poetas de nosso tempo”, é citado na obra como testemunha dessa contemporaneidade que nunca se perde. O autor ilustra sua afirmação com o projeto cinematográfico em que PPP pretendia situar o apóstolo hoje sem mudar uma só palavra que remanesce do que ele escreveu há 20 séculos. Poderoso exemplo, não?

Só que há no livro de Badiou algo que vai além do roteiro citado, no qual Pasolini pretendia fazer do xará dele um ancestral dos comunistas atuais. A atualidade que o pensador moderno vê nas cartas do apóstolo de antanho não se apoia em ideias, mas em eventos, na clareza com que o missivista antigo descrevia os fatos de seu tempo com a clarividência de quem é capaz de enxergar além dele. O Paulo de Badiou não é precursor, mas profeta: não prevê, mas relata o que vai mudar para que tudo fique tal qual sempre foi.

José Nêumanne

Fonte: Trilhas Literárias

RÉQUIEM PARA UM POETA QUE SE FOI


Antonino Oliveira Júnior

E o poeta disse não,
disse adeus à inspiração...
preferiu o exílio de si mesmo
ou o partir como quem morre...

Tanto amor cultivado
tanta or transformada
tanto amor
que teu olhar pétreo ignorava;

E o poeta partiu como quem morre...

Sabendo-se caidiço
recusa-se a voltar o olhar
e apenas leva na mente
a relva onde deitou seus versos...

E o poeta partiu como quem morre,
no recato de seus pensamentos.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

JANEIRO DE GRANDES ESPETÁCULOS 2010 PREMIADOS COM O TROFÉU APACEPE DE TEATRO E DANÇA




Na quarta-feira, 27 de janeiro, o salão de festas do Sesc de Santo Amaro superlotou com tantos artistas do teatro, da dança, da ópera e da música para a entrega do Prêmio APACEPE de Teatro e Dança, único voltado à produção profissional das artes cênicas no estado. Os troféus confeccionados pelo artista plástico Ricardo Cardeal foram entregues aos melhores do décimo-sexto projeto Janeiro de Grandes Espetáculos, com show de encerramento da cantora Gerlane Lops, em repertório animado marcado por sambas clássicos. A apresentação da festa ficou a cargo de intérpretes de produções premiadas na versão 2009: os bailarinos Mieja Chang (de “Coreológicas Recife”) e José W. Júnior (de “Imagens Não Explodidas”) e os atores Geysa Barlavento e Biagio Pecorelli (ambos do musical infanto-juvenil “Outra Vez, Era Uma Vez...”). A noite foi extremamente descontraída e, segundo uma unanimidade, com uma premiação bem rápida, afinal, todos queriam festejar com muita música e dança. Os atores Ivan Leite e José Brito, como o divertido casal Mateus e Catirina, animaram ainda mais o público presente, que pôde apreciar ainda uma ária da ópera “Dido e Eneas”, com a soprano Virgínia Cavalcanti acompanhada do pianista Manoel Theophilo, em homenagem a dois artistas falecidos, Hermógenes Araújo e Átila Araújo, e um número de dança de salão com os bailarinos Roberto Pereira & Giselly Andrade. Foi pura confraternização!

CURTAS & BOAS



INTERPOÉTICA INFORMA:

A TRANSPARÊNCIA DO TEMPO

A Transparência do Tempo, livro de poesia de Fábio Andrade será lançado no dia 30 de janeiro, às 17h, na galeria Arte Plural, Rua da Moeda, 140 - Bairro do Recife. Na ocasião os escritores Cristhiano Aguiar e Felipe Aguiar debaterão sobre o livro. Confira.

A SOLIDÃO É ESPAÇOSA

Lula Arraes fala do livro de contos e crônicas: A solidão é espaçosa - Editora Caliban, da escritora Inah Lins de Albuquerque, que vai ser lançado no dia 2 de fevereiro, às 19h, na Livraria Cultura - Paço Alfândega, Bairro do Recife.

SELETA DA LITERATURA VISCERAL DE LARA

O poeta Lara está disponibilizando on line seu último livro: Seleta Visceral. Trata-se de uma coletânea cuja seleção foi feita pelo próprio autor, a partir de textos já publicados em seus sete livros anteriores e inclui uma pequena novela finalizada recentemente e alguns trabalhos inéditos.

Estamos abrindo novamente o espaço da “corda virtual” para ser glosado o mote, de autoria do poeta e xilogravador, Marcelo Soares:
VI A PORTEIRA DO MUNDO
ENTRE AS PERNAS DA MULHER

www.interpoetica.com

A RUA E ELE



Douglas Menezes*

A cidade dorme com ele. A marquise é o teto que a vida negou. Nevoenta a madrugada cabense. A cidade, já cosmopolita, silencia junto à chuva fina. Tão silenciosa quanto as pessoas fechando os olhos e ouvidos para aquele corpo encolhido sob papelões rasgados. Rasgada a roupa. Rasgada a carne pela violência mal disfarçada. Ao lado, a garrafa alimentando a ilusão. Solvente, cola, sei lá o quê, entorpecendo o sofrimento. Talvez sonhe com uma coisa que não virá. Talvez sonhe com um futuro nunca a realizar-se. Talvez nem chegue ao presente, tirado da vida assim, ao acaso. Ou ao sabor da crueldade planejada.

Nem dez anos, ele. Tenra idade, maduro precocemente. Horas depois,a rotina. Zanzando, furtando, gritando, rindo, chorando, cantando, existindo e morrendo, quem sabe.

Nome não tem. Só apelidos, desde que surgiu no mundo. Ele não nasce, surge: ventola, maromba, pivete, cacimba, negão. Vez por outra, um gesto de compaixão: um pão mal-dormido, igual a ele. No mais, o ódio pela maldade plantada, latente. Não teve tempo de ser bom. O cotidiano impondo-se monótono, todo dia igual. Talvez uma arma na mão, posta como um amuleto às avessas, selando seu destino. A antítese matar ou morrer passaria a evidenciar os passos da sua vida.

Um leve movimento indica a manhã próxima. Sair cedo é preciso. A claridade um aviso, não muito tempo pode passar ali. A manhã chega. A existência dele,no entanto, é noite. Uma arma na mão, talvez. A perversidade que não pôde nunca expressar ternura.

A cidade acorda. É linda a cidade acordando, com os pregões e os operários barulhentos. Envergonha-me observar o pequeno corpo ainda estendido sob o cimento, seu lar. Daqui a pouco, escorraçado, aumentará a legião de miúdos viventes, invisíveis para uma sociedade que olha, mas, insensível e hipócrita, desumana até, insiste em não ver.

*Douglas Menezes é membro da Academia Cabense de Letras.
Junho de 2008 .

AMOR SEM ROMANCE (da peça "Coração Lilás)


Antonino Oliveira Júnior*

Eu nem abri meu coração
E você, lentamente,
foi transpondo tecidos,
músculos, células,
penetrando suave,
como suave é o ato de amar;
E aquietou meu coração arrítmico,
ditou seu compasso,
irrigou vasos,
liberou artérias
e concedeu vida à minh’alma;
Dois seres felizes,
prenhes de amor,
de um amor sem paixão,
de um amor sem romance,
de um amor que é só vida.

*Antonino Oliveira Júnior é membro da Academia Cabense de Letras

TÁ CHEGANDO O CARNAVAL - EVOÉ


DOMINGOS SÁVIO SERÁ HOMENAGEADO NO ENCONTRO DE BLOCOS

O maestro Domingos Sávio, do Coral e Orquestra Fantasia da Juventude Lírica, será um dos homenageados no Encontro de Blocos, que acontecerá no dia 31 de janeiro, domingo próximo, a partir das 16 horas, na rua da Aurora, em Recife. Os que reconhecem em omingos um defensor do autêntico carnaval pernambucanos, sem suingueiras e nem baianices, o parabenizam pelo reconhecimento dos recifenses.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

DITADURA


Natanael Júnior

VIVEMOS (ainda) SOB UMA

DITADURA

DURA VIDA

VIDA DURA...

BENDITA VIDA

VIDA BEM DITA

BEM DITA

BEM LIDA

VIDA.

TÁ CHEGANDO O CARNAVAL - EVOÉ



Acontece no próximo domingo, 31 de Janeiro, mais um Encontro de Blocos, na Rua da Aurora, em Recife. É uma oportunidade ímpar de ter contato com os Blocos Líricos de Recife e de ficar bem próximo e até participar das apresentações das agremiações que representam o carnaval romântico, que ainda faz chorar quando acaba o carnaval. É dia 31 de Janeiro, domingo, a partir das 16 horas, na Rua da Aurora, em Recife.

FRASES QUE CAMINHAM PELA CIDADE DO CABO DE SANTO AGOSTINHO

"Cidade de tantas Histórias e sem nenhuma prá contar" (Gabriel Dourado - Poeta, em 1960))

"A cidade está passando por uma profunda depressão cultural" (Antonino Oliveira Júnior - Escritor - 2007)

"No Cabo, a arte está morta" (Mestre Uruda - Artista Plástico / Ceramista - 2010)

UM ARTISTA PLURAL


Lula Côrtes

Lula Côrtes é único na força de suas canções, de suas poesias e de suas telas. Poeta, compositor e artista plástico, além de músico, é o que pode chamar de artista plural. Dono de uma visão pouco convencional do que seja o belo, é, na verdade, um artista que tudo tinha para ser mais um xodó das elites, no entanto, cheira a povo, porque transpira humildade e exercita diariamente uma profunda proximidade com a cultura popular. Roqueiro clássico, no sentido de primar pela qualidade, produz arte e cultura de forma contumaz. Como homenagem do Blog, postamos duas de suas belas canções:

A Força da canção
Lula Côrtes


Não deixe que o mundo malvado destrua
A força da sua mais nova canção
Que o monstro sedento lhe oprima e lhe assuste
Em seu desajuste, lhe roube a emoção
Não deixe que a dura visão do abandono
Lhe torne tão louco como um cão sem dono
Vagando na rua sem ser de ninguém
Que os galhos profundos dos golpes da vida
Lhe tomem, se tornem eternas feridas
De uma força maior que lhe afaste do bem
Porque a maldade, meu bem na verdade
É o puro retrato da realidade
Dos homens mais fracos que perdem a partida
Mais pelo contrário, reúna-se aos seus
Quando e se puder faça as pazes com Deus
Talvez uma luz lhe indique a saída.

Versos perversos
Lula Côrtes


Meus versos são frutos perversos
E que não brotam do nada
Ao contrário dessa coisa tão falada
Da inspiração que vem do espaço etéreo
Eu contestando esse argumento antigo
Digo acordado e assim sonhando, estigo
Versos são frutos com sabores sérios
Insônia, solidão, ou descontentamento
Versos são quase como um testamento
Deixados por homens sombrios

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A menina Clarice Lispector: erotização da infância


Por Ermelinda Ferreira

Você sabe que só relembrando de uma vez, com toda a violência, é que a gente termina o que a infância sofrida nos deu?
(Clarice Lispector )


Analisados conjuntamente, uma característica sobressai nos contos que tematizam Clarice Lispector quando menina, no livro Felicidade Clandestina: o erotismo. São quatro histórias de amor, ou de quase-amor, ou do amor como inevitável destino, vivenciadas em ansiosa expectativa por uma menina que mal pode esperar crescer, e que não se sente à vontade no corpo provisório de sua “interminável infância”, de sua “infância impossível”. “Nasci para amar os outros – diria ela –, para escrever e para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca”.

Escritas em primeira pessoa, neste que poderia ser considerado um dos livros de cunho mais autobiográfico da autora, as narrativas resgatam, de uma perspectiva memorialista da mulher adulta, a arguta ingenuidade de seus pensamentos e sentimentos aos oito e nove anos de idade, quando moradora da cidade do Recife, por cujas ruas perambulava, aos saltos, enchendo-as da memória da sua passagem. Esse material, buscado a uma época tenra de sua história pessoal, é utilizado para suas reflexões sobre a vida, a atividade literária e o exercício de um feminismo místico que se torna a marca de seu estilo.

Nascida em 10 de dezembro de 1920 em Tchetchelnik, uma aldeia na Ucrânia que não aparece no mapa, Clarice chegou ao Brasil com dois meses de idade, para morar em Alagoas, e depois em Pernambuco. Passou a infância em Recife, mudando-se com a família para o Rio de Janeiro em 1934. Em Recife, morou num pequeno sobrado na Praça Maciel Pinheiro, e fez o curso primário no grupo escolar João Barbalho. Aos sete anos aprendeu a ler e descobriu que os livros eram escritos por autores, fato espantoso para ela. Queria ser autora também e passou a escrever histórias ingênuas, que enviava para o Diário da Tarde. Havia prêmios para as melhores, mas Clarice nunca ganhou nada, talvez porque seus textos já focalizassem menos o enredo do que a reflexão. Aos nove anos escreveu uma peça de três atos, que não revelou a ninguém e por muito tempo guardou numa estante: “Era uma história de amor”, confessaria mais tarde. E lia muito. Também aos nove anos, perdeu a mãe. No mesmo ano, terminou o curso primário e entrou para o Ginásio Pernambucano. Foi aí que tomou consciência “de que estudava”.

Através da erotização de sua infância, Clarice fala de si mesma como de uma criança precoce, ansiosa para crescer e tomar posse de sua vida e dos segredos do mundo dos adultos. O erotismo também aparece nesses contos como um mecanismo compensatório das dificuldades enfrentadas pela família de imigrantes russos – o pai Pedro, a mãe Marian e as três filhas, Tânia, Elisa e Clarice – para sobreviver no novo país, resgatando a alegria que o termo “erótico” evoca, como impulso de vida, fecundidade e criação – elementos que a guiarão sempre – em oposição a tanatos, o impulso da morte, da esterilidade e da destruição.

A seguir, consideraremos os quatro contos - “Felicidade Clandestina”, “Restos do Carnaval”, “Cem Anos de Perdão” e “Os Desastres de Sofia” – analisando a perspectiva da infância erotizada.

FELICIDADE CLANDESTINA

O título do livro - Felicidade Clandestina - é sugestivo porque colhido de um relato, contido neste volume, que homenageia o pai da literatura infantil brasileira, Monteiro Lobato, de maneira entusiástica: através da paixão de uma menina (que se supõe ser a própria Clarice) pelo primeiro volume da série d’O Sítio do Picapau Amarelo: As Reinações de Narizinho. Provavelmente não foi casual a alusão a esta obra por Clarice, uma vez que ela centraliza a ação numa menina de sete anos, órfã – Lúcia, a “Narizinho” -, que é criada pela avó. A famosa Emília ainda aparece como boneca de pano, muda, que só ganhará voz e destaque ao longo do tempo. Os principais episódios de abertura da série dialogam com a temática clássica dos contos de fadas dirigidos sobretudo às meninas: a espera do príncipe encantado, que levará ao inevitável “final feliz” desse gênero de história: o casamento. Os principais eventos do livro de Lobato, portanto, são dois casamentos “arranjados”: o de Narizinho com o “Príncipe Escamado”, rei do maravilhoso Reino das Águas Claras, situado no ribeirãozinho do sítio; e o de Emília com o porco do quintal, o célebre “Marquês de Rabicó”. A fina ironia de Lobato com relação aos temas ligados à mulher, a irreverência com que sugere às meninas atitudes de independência e liberdade, bem como o senso profundamente crítico com que relê os textos dedicados à infância, não devem, certamente, ter escapado à percepção de Clarice. Um dos príncipes “encantados” aparece “escamado”, o outro é emporcalhado e indigno sequer da alcunha de “marquês”. Após o casamento, as meninas abandonam os “maridos” e seguem suas vidas. Emília cogita em “divórcio” ao longo da série, numa época em que o divórcio era proibido no Brasil, razão pela qual os livros de Lobato chegaram a ser queimados e proibidos nos colégios católicos para moças. A busca da verdade para além da convenção é uma constante na narrativa infantil de Lobato, e a marca de sua originalidade e pioneirismo na reformulação do gênero e na redefinição da imagem da criança na sociedade moderna, até então “esculpida” pelos textos moralistas, perpassados pelas noções de culpa e de castigo.

O enredo de Clarice é muito simples. Uma menina deseja ler o livro de Lobato, sensualmente descrito como “um livro grosso, meu Deus, para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o”. O livro pertence a uma colega, cujo pai é dono de uma livraria. Essa garota tiraniza a amiguinha longamente, criando uma expectativa nunca satisfeita de empréstimo, e estabelecendo uma relação cruel de dependência que só terminará quando sua mãe descobrir o fato e entregar o livro à menina desesperada, que todos os dias “batia à sua porta, exausta, ao vento das ruas de Recife”. Desde o início, porém, o relato ressalta as características físicas das meninas, valorizando o estereótipo da “bonitinha, esguia, altinha, loura e de cabelos livres”, que provocava a inveja da “gorda, baixa, sardenta e de cabelos crespos”, que se vingava impondo à outra o suplício da esperança. A rivalidade que se estabelece entre ambas aproxima-se, assim, de uma disputa pelo ser amado, objeto do amor real de uma, e da simples posse interesseira de outra, que culmina com a revelação da alegoria, quando da descrição da “felicidade clandestina” da criança que obtém o objeto amado: “Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”.

RESTOS DE CARNAVAL

Em “Restos do Carnaval” o procedimento narrativo é o mesmo: a escritora adulta rememora um episódio da sua infância passada nas ruas e praças de Recife, que encontravam “sua razão de ser” no Carnaval. O episódio tem uma carga emocional muito forte, porque expressa o conflito vivido pela menina pequena, cercada pela alegria da festa alheia, a festa de rua, a festa de todos, a festa em si mesma, e o peso de um drama familiar, nota destoante de uma tragédia íntima, ameaçadora e terrível para qualquer criança: a doença da mãe, que piora nesta data, e que depois viria a falecer. O contraste é gritante, e aparece até no título: “restos”. Restos de um carnaval que, por qualquer motivo, a escritora relembra como “as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete”, e que vem a se tornar alegoria de outras situações semelhantes na vida, quando a própria vida em festa parece rir, cruelmente, do seu luto pessoal.
A história, porém, não ocorre numa quarta-feira. O carnaval está apenas começando, e a menina - cujas dificuldades financeiras são sempre enfatizadas, pelo aprendizado da privação e da conformação a que a obriga desde cedo -, acaba de ganhar uma fantasia de Rosa, dos restos da fantasia de uma amiguinha. Toda a dor que a autora adulta revela pela consciência do contraste irônico da situação, para ela imperdoável (“Muitas coisas que me aconteceram tão piores que esta, eu já perdoei. No entanto esta não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso”), inexiste na atitude da criança descrita. Completamente alheia, ou alheando-se inconscientemente do seu drama pessoal, a menina não pensa na mãe a sofrer. Não pensa na morte que se aproxima, e a agitação da família em torno da mãe doente é ignorada em função da fantasia. A fantasia real, a roupa de papel crepom cor-de-rosa, que pretendia imitar as pétalas de uma flor; e a fantasia abstrata, a realização de um sonho: “pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma”, que revela o desejo de fuga daquela situação angustiante demais para ser apreendida pela criança, e talvez da própria vida real, sentida em seu limite e estreiteza.

O clímax do conto acontece em meio à agitação da menina que, preparada para a festa, é enviada depressa à farmácia para comprar remédio para a mãe, que sofre uma súbita piora. Ela vai, correndo, mas acompanhada de muda revolta e indignação pela coincidência da tragédia que se atravessa no caminho da sua alegria, sentimentos que perduram para além da infância, sobrevivendo no espírito da mulher adulta que relembra o fato. Nenhuma palavra de simpatia, preocupação ou dor é proferida com relação à mãe, nem mesmo pela adulta que a rememora. Clarice menciona apenas a lembrança de algum remorso da menina pela sua “fome de êxtase”, que ameaçava voltar em meio à festa da qual se sentia impedida de participar. De maneira algo egoísta, o que dói é a quebra da magia da criança, que começava a se acreditar uma Rosa, satisfazendo seu “sonho intenso de ser uma moça”. O que dói é a súbita deserotização da menina, que finalmente teria realizado o seu sonho de transformação em mulher, com a inesperada roupa que completaria a pintura forte nos lábios, o ruge nas faces e os cabelos frisados pela irmã, a seu pedido, nos outros Carnavais. O que dói, e o que a faz relembrar este episódio, é o desencanto vivido: “não era mais uma Rosa, era um palhaço pensativo de lábios encarnados”.

O “final feliz” surge como um anti-clímax, aí colocado para impedir, talvez, que a condenação da mãe doente pela criança frustrada em seus desejos apareça como o único desfecho cruel dessa história. Daí a menção ao menino de doze anos, que cobre de confete os cabelos “já lisos” da menina, fazendo-a sentir-se, por um instante neste dia horrível, uma “mulherzinha” de oito anos: uma Rosa.

CEM ANOS DE PERDÃO


Quem me amasse, assim eu curaria quem sofresse de mim.

Neste breve conto, também passado nas ruas de Recife, Clarice Lispector aborda novamente o tema da rosa, que lhe é tão caro. Rosa é um anagrama de Eros, o deus do amor, e essa flor tem sido consagrada às Deusas do Amor desde a Antigüidade. Também é curioso observar que o termo sub rosa, para os ocultistas, significa “algo feito em segredo”. A expressão “sob o signo da rosa” tem um sentido bastante específico para os iniciados nas doutrinas esotéricas. Para eles, o segredo é a Rosa – a rosa vermelha da outra Maria, não a mãe, mas a esposa; a Maria que representa Eros, o aspecto nupcial apaixonado do feminino que foi negado pela Igreja Católica. Os rosa-cruzes, cuja sociedade secreta proliferou durante o século XVII, mas que provavelmente se originou muito tempo antes, usavam o símbolo da cruz com a rosa no centro, cujo real significado só era conhecido por um pequeno grupo. Essa não era a cruz ortodoxa de Pedro e Jesus, que foi repudiada pelos hereges como um impiedoso instrumento de tortura. A sua cruz era o X vermelho da iluminação verdadeira, símbolo de lux ou “luz”. E lux está contido em “luxúria”, um dos pecados capitais condenados pela Igreja. Para os hereges dos primeiros tempos do catolicismo, a negação e a repressão do feminino haviam deformado a sociedade, privando-a de sua alegria e independência. Desde então, o trabalho de muitos artistas e intelectuais iniciados voltou-se para o uso de uma simbologia oculta, na tentativa de devolver a Mulher, o feminino esquecido, à consciência da sociedade.

A história de Clarice situa a menina, mais uma vez, num ambiente de contraste entre um mundo de sonho, ao qual pertencem os outros, e um mundo de privações, que é o seu. Se em “Felicidade Clandestina” ela fala da dificuldade de comprar livros e em “Restos de Carnaval” da dificuldade de ter uma fantasia – o que, afinal, é quase a mesma coisa -, em “Cem anos de perdão” ela fala de outra fantasia, tornada talvez realidade, e cuja satisfação da conquista se assemelha a uma visita aos bairros ricos da cidade, diferentes do seu, onde em vez de sobrados simples como aquele em que mora há imponentes palacetes cercados de pomares e jardins, que despertam a sua admiração e cobiça.

O relato memorialístico lembra a menina Clarice, com uma amiguinha, olhando “com a cara imprensada nas grades”, estrangeiras e ávidas, o mundo de beleza e fartura que lhes é vedado, do qual se sentem exiladas e no qual são, efetivamente, proibidas de entrar. O enredo se desenvolve em torno dos cálculos da menina para roubar uma rosa de um jardim. O objeto do roubo é tão pequeno para a importância que lhe dá a autora, que chega a produzir uma suspeita no leitor. Ao contrário dos demais contos, nos quais ela implora a outros a satisfação de seus desejos, ou cede à frustração dos mesmos, neste conto ela não espera nem se conforma, ao contrário, tece os seus ardis e vai em busca daquilo que deseja, sem se importar com as conseqüências. É como se toda aquela exuberância e alegria alheias pudessem ser experimentadas por vias sorrateiras, ilegais, mas tão legítimas quanto quaisquer outras.

Uma carga simbólica fortemente erótica envolve todo o relato desta mulher, cujo nome, Lispector – literalmente “flor-de-lis no peito” –, evoca o lírio, outra flor mística que na tradição bíblica é símbolo da eleição do ser amado, como aparece no Cântico dos Cânticos, e na tradição heráldica representa a flor de glória, fonte de fecundidade. A brancura do lírio, símbolo de pureza, inocência e virgindade, contrapõe-se ao vermelho da rosa, que na iconografia cristã é a taça que recolhe o sangue de Cristo, ou a transfiguração das gotas desse sangue, ou o signo das chagas de Cristo. Por sua relação com o sangue derramado, a rosa parece ser freqüentemente o símbolo de um renascimento místico através do amor. Curiosamente, Clarice cria uma alcunha para si que ultrapassa a “marca” de pureza atávica impressa em seu sobrenome: Rosa.

OS DESASTRES DE SOFIA

Eu daria tudo o que era meu por nada, mas queria que tudo me fosse dado por nada.
Fechando a série da nossa seleção de quatro narrativas autobiográficas, este longo conto também alude, como o primeiro, a um livro infantil: Os Desastres de Sofia, da Condessa de Ségur, grande sucesso na França e no Brasil até meados do século XX. Também neste caso a alusão não parece ser gratuita. Muitos elementos neste livro são de importância fulcral para a autora. O nome da menina, por exemplo, que significa “sabedoria”, entra em choque com a sua atuação dita “desastrosa” no mundo, narrada sob a forma de episódios onde a efabulação conduz a uma inevitável “moral da história”, de cunho fortemente religioso e repressor. Expressa por um adulto - em geral a mãe, que ocupa o lugar da educadora –, esses ensinamentos direcionam-se sempre ao julgamento e à condenação dos atos da criança, desfiando os itens de uma cartilha de normas sobre a formação de uma “menina exemplar”. As meninas exemplares é, aliás, o título do segundo volume da “edificante” série desta autora, um gênero que durante décadas foi considerado de eleição para a leitura do público infantil. Neste livro, reforça-se o contraste do comportamento de duas irmãs “perfeitas”, Camila e Madalena, e da “pobre Sofia”, agora órfã de mãe – como a menina Clarice –, que após um breve período de castigos e sofrimentos atrozes com a madrasta, passa a viver com uma nova família, a fim de continuar o seu aprendizado para a vida.

Numa pedagogia que se pretende moderna e menos repressora, a Condessa sublima a agressão física, descrevendo técnicas variadas de tortura psicológica para refrear os impulsos indesejados das crianças. Os livros deixam clara a noção de treinamento: a literatura infantil deveria ser um aliado importante na árdua tarefa da família e da escola de criar o adulto ideal, obedecendo a parâmetros pré-estabelecidos. Assim, o leitor da obra da Condessa de Ségur poderá acompanhar a transformação da alegre e irreverente Sofia, uma menina interessante e curiosa, cheia de vida e de idéias, numa pálida versão de si mesma, irreconhecível na criaturinha tímida e oprimida, silenciosa e submissa que aparece, em papel exemplarmente secundário, no terceiro volume da série, As Férias.

No livro resgatado por Clarice, portanto, a pequena Sofia tem inacreditáveis três anos de idade para a severidade do exercício de doutrinamento ao qual é submetida, e que deve ter atingido a jovem leitora Clarice de perto, pois menciona questões que lhe são pessoalmente caras. Como a vaidade da menina, por exemplo. Num dos episódios que começa, como os demais, definindo o “pecado” de Sofia que se vai procurar corrigir – “Sofia era vaidosinha. Gostava de estar sempre bem arrumada e de que a achassem bonita. No entanto, ela não era bonita.” -, a Condessa narra a admiração de Sofia pelos cabelos cacheados. Como vimos, esse também era um tópico importantíssimo para a menina Clarice, cujos cabelos irremediavelmente lisos causavam-lhe tristeza. Como diz, no conto “Os desastres de Sofia”: “Suportando com desenvolta amargura as minhas pernas compridas e os sapatos sempre cambaios, humilhada por não ser uma flor, e sobretudo, torturada por uma infância enorme que eu temia nunca chegar a um fim – sacudia com altivez a minha única riqueza: os cabelos escorridos que eu planejava ficarem um dia bonitos com permanente e que por conta do futuro eu já exercitava sacudindo-os”.

No livro da Condessa, a condenação de Sofia por haver molhado os cabelos na chuva para encrespá-los vem sob a forma de um castigo humilhante. A mãe a expõe, deliberadamente, ao riso e às pilhérias dos outros, obrigando-a a comparecer ao jantar toda suja e molhada. O resultado é sempre definido numa frase de arremate, onde a Condessa resume o sucesso do seu método educacional: “Desde esse dia Sofia nunca mais se expôs à chuva para encrespar o cabelo”. Em outros episódios: “Nunca mais procurou fazer nada para ficar com sobrancelhas bonitas”; “Nunca mais foi aonde não devia ir”; “Nunca mais disse o que não devia dizer”; “Nunca mais fez o que não devia fazer”. Assistimos, assim, à paulatina destruição da auto-estima da criança, à amputação do seu intelecto, ao cerceamento da sua criatividade e ao encaminhamento de sua história para um fim previsível e insípido, onde a “sabedoria” impressa no nome da menina é associada à mera habilidade de repetir as regras ditadas, obedecendo-as para corresponder às expectativas dos adultos.

Em seu estudo Literatura Infantil –Teoria, Análise, Didática, Nelly Novaes Coelho discute a radical mudança dos valores tradicionais da sociedade, ocorrida no século XX, e determina quais os principais aspectos temáticos e formais que diferenciam as literaturas destinadas ao público infantojuvenil de ontem e de hoje. No quadro abaixo transcrito, ela oferece um resumo das características dos dois paradigmas de representação da criança vigentes nas obras para e/ou sobre a infância, que podem ser úteis para analisarmos os seus princípios nas autoras aqui consideradas:

Última semana do XVI Janeiro de Grandes Espetáculos

SEGUNDA-FEIRA COM DEBATE E LEITURA

Debate sobre as atrações de dança do evento (5 Minutos Para Blackout, De Dentro, Leve, Por Um Fio Em Lã e Sobre Um Paroquiano), às 19h, no Espaço Compassos (Rua da Moeda, 93, 1° Andar – Bairro do Recife), com participação da pesquisadora Roberta Ramos e do bailarino Marco Bonachela. A mediação é do jornalista Marcelo Sena. Entrada franca.

Também às 19h, no Teatro Apolo (tel. 3232 2028), acontece a leitura dramática da tragédia grega “As Troianas”, de Eurípedes, com o Grupo Magiluth, sob direção de Marcus Rodrigues. Entrada a R$ 1 (hum real).

TERÇA-FEIRA PUNK

O Coletivo Dois Contemporâneo (MG), apresenta às 20h, no Teatro Armazém (Bairro do Recife), ao preço de R$ 5 (valor único promocional), “Meu Grito de Dor”, montagem em dança-teatro com cenas de sadomasoquismo, tortura e violência. Espetáculo indicado para maiores de 18 anos.

QUARTA-FEIRA DE FESTA

A entrega do Troféu APACEPE de Teatro e Dança aos melhores do projeto JGE acontece no Sesc de Santo Amaro, às 19h, em meio a uma festa de confraternização. O ator José Brito no papel da divertida Catirina, os dançarinos de salão Giselly Andrade & Roberto Pereira e a cantora lírica Virgínia Cavalcanti são as atrações convidadas, com show de encerramento da sambista Gerlane Lops. Entrada franca para os artistas participantes do evento e R$ 5 para o público em geral. Informações: 3082 2830.

QUINTA-FEIRA INTERNACIONAL

Atração de Portugal, “A Visita”, da companhia Teatro Invisível, é um solo do ator português Pedro Giestas, com apresentação nesta quinta e sexta, às 20h, no Teatro Marco Camarotti (Sesc de Santo Amaro) e ingressos a R$ 20 e R$ 10. Texto e direção de Moncho Rodriguez.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

OROPA, FRANÇA E BAHIA


ASCENSO FERREIRA

"Oropa, França e Bahia"

(Romance)

Para os 3 Manuéis:
Manuel Bandeira
Manuel de Souza Barros
Manuel Gomes Maranhão


Num sobradão arruinado,
Tristonho, mal-assombrado,
Que dava fundos prá terra.
( "para ver marujos,
Ttituliluliu!
ao desembarcar").

...Morava Manuel Furtado,
português apatacado,
com Maria de Alencar!

Maria, era uma cafuza,
cheia de grandes feitiços.
Ah! os seus braços roliços!
Ah! os seus peitos maciços!
Faziam Manuel babar...

A vida de Manuel,
qque louco alguém o dizia,
era vigiar das janelas
toda noite e todo o dia,
as naus que ao longe passavam,
de "Oropa, França e Bahia"!

— Me dá uma nau daquelas,
lhe suplicava Maria.
— Estás idiota , Maria.
Essas naus foram vintena
Que eu herdei da minha tia!
Por todo o ouro do mundo
eu jamais a trocaria!

Dou-te tudo que quiseres:
Dou-te xale de Tonquim!
Dou-te uma saia bordada!
Dou-te leques de marfim!
Queijos da Serra Estrela,
perfumes de benjoim...

Nada.
A mulata só queria
que seu Manuel lhe desse
uma nauzinha daquelas,
inda a mais pichititinha,
prá ela ir ver essas terras
"De Oropa, França e Bahia"...

— Ó Maria, hoje nós temos
vinhos da quinta do Aguirre,
uma queijadas de Sintra,
só prá tu te distraire
desse pensamento ruim...
— Seu Manuel, isso é besteira!
Eu prefiro macaxeira
com galinha de oxinxim!

"Ó lua que alumias
esse mundo de meu Deus,
alumia a mim também
que ando fora dos meus..."
Cantava Seu Manuel
espantando os males seus.

"Eu sou mulata dengosa,
linda, faceira, mimosa,
qual outras brancas não são"...
Cantava forte Maria,
pisando fubá de milho,
lentamente no pilão...

Uma noite de luar,
que estava mesmo taful,
mais de 400 naus,
surgiram vindas do Sul...
— Ah! Seu Manuel, isso chega...
Danou-se de escada abaixo,
se atirou no mar azul.

— "Onde vais mulhé?"
— Vou me daná no carrosé!
— Tu não vais, mulhé,
— mulhé, você não vai lá..."

Maria atirou-se n´água,
Seu Manuel seguiu atrás...
— Quero a mais pichititinha!
— Raios te partam, Maria!
Essas naus são meus tesouros,
ganhou-as matando mouros
o marido da minha tia !
Vêm dos confins do mundo...
De "Oropa, França e Bahia"!

Nadavam de mar em fora...
(Manuel atrás de Maria!)
Passou-se uma hora, outra hora,
e as naus nenhum atingia...
Faz-se um silêncio nas águas,
cadê Manuel e Maria?!

De madrugada, na praia,
dois corpos o mar lambia...
Seu Manuel era um "Boi Morto",
Maria, uma "Cotovia"!

E as naus de Manuel Furtado,
herança de sua tia?

— continuam mar em fora,
navegando noite e dia...
Caminham para "Pasárgada",
para o reino da Poesia!
Herdou-as Manuel Bandeira,
que, ante a minha choradeira,
me deu a menor que havia!

— As eternas naus do Sonho,
de "Oropa, França e Bahia"...

O CARNAVAL ESTÁ CHEGANDO - EVOÉ


GETÚLIO CAVALCANTI

ÚLTIMO REGRESSO

Composição: Getúlio Cavalcanti

Falam tanto que meu bloco está,
dando adeus pra nunca mais sair.
E depois que ele desfilar,
do seu povo vai se despedir.

Do regresso de não mais voltar,
suas pastoras vão pedir:
Não deixem não, que o bloco campeão,
guarde no peito a dor de não cantar.
Um bloco a mais é um sonho que se faz
o pastoril da vida singular.

É lindo ver ver o dia amanhecer,
ouvir ao longe pastorinhas mil,
dizendo bem, que o Recife tem,
o carnaval melhor do meu Brasil

O BICHO


Manuel Bandeira

VI ONTEM um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

COMPUTADORES A LENHA, CHIPS A VAPOR

Malungo

Mãos analfabetas folheiam cordéis digitais.
Paralíticos binários dançam cirandas ancestrais.
Os alto-falantes vomitam os sons dos sintéticos
baiões.
Um bando alienando o povo com seus forrós
charlatões.

Neurônios, fios e tomadas.
Circuitos e impulsos nos pés
Dançando um maracatu elétrico.
Das mãos saem faíscas;
Palmas pro coco de roda!

Um pensamento plugado na eletrosfera
E um cérebro iluminando quarteirões.

DEUS-VERME


Augusto dos Anjos

O DEUS-VERME

Factor universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme - é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação fúnerea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

VOZ POR TODA PARTE

Natanael Lima Jr.

um acordo fiz contra o acordo:
sangrar de vez a voz
e ser grito e lábios eternamente.

um acordo fiz contra o acordo:
ter palavras qual extensão da vida
e ser olhos, mãos e alma.

um acordo fiz contra o acordo:
jamais limitar o sonho
e viver até desflorescer.

um acordo fiz contra o acordo:
jamais ressuscitar a dor,
ser amor permanente
e voz por toda parte.


*Natanael Lima Jr. é membro da Academia Cabense de Letras

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

ACTA A TODO VAPOR



A ACTA - Associação Cabense de Teatro Amador, continua a todo vapor, no processo de revitalização e anuncia para o dia 26 de janeiro, às 19 horas, a primeira reunião do ano, estando na pauta, dentre outros assuntos, a XV MOCASPE. Lugar de ator é na ACTA. Participe.

PONTO DE CULTURA BACAMARTE: TIRO DA PAZ


OFICINA DE XAXADO

Dia 23 de Janeiro, sábado, a partir das 9 horas da manhã, Oficina de Xaxado, grátis, promovida pelo Ponto de Cultura Bacamarte: Tiro da Paz, em convênio com a Fundarpe. O Ponto de Cultura é coordenado pelo poeta e artista plástico Ivan Marinho, que também integra o grupo de Bacamarteiros do Cabo de Santo Agostinho.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

FANTASIA DA JUVENTUDE LÍRICA


O Coral e Orquestra Fantasia da Juventude Lírica já está em fase de ensaio geral. Coordenado e liderado pelo professor e maestro Domingos Sávio, o grupo, nascido no Cabo de Santo Agostinho é, hoje, um nome bastante requisitado por Blocos de Recife e para apresentações em focos de animação do carnaval de Pernambuco.

TÁ CHEGANDO O CARNAVAL - EVOÉ


Dia 31 de Janeiro acontece o tradicional Encontro de Blocos, na Rua da Aurora, em Recife. É simplesmente espetacular este evento que leva os presentes a se deliciarem com o carnaval romântico dos Blocos Líricos. Vale a pena chegar, no final da tarde e entrar pela noite, curtindo os mais belos frevos-de-blocos. É uma viagem ao mundo do carnaval romântico. Vale a pena conferir.