sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

OROPA, FRANÇA E BAHIA


ASCENSO FERREIRA

"Oropa, França e Bahia"

(Romance)

Para os 3 Manuéis:
Manuel Bandeira
Manuel de Souza Barros
Manuel Gomes Maranhão


Num sobradão arruinado,
Tristonho, mal-assombrado,
Que dava fundos prá terra.
( "para ver marujos,
Ttituliluliu!
ao desembarcar").

...Morava Manuel Furtado,
português apatacado,
com Maria de Alencar!

Maria, era uma cafuza,
cheia de grandes feitiços.
Ah! os seus braços roliços!
Ah! os seus peitos maciços!
Faziam Manuel babar...

A vida de Manuel,
qque louco alguém o dizia,
era vigiar das janelas
toda noite e todo o dia,
as naus que ao longe passavam,
de "Oropa, França e Bahia"!

— Me dá uma nau daquelas,
lhe suplicava Maria.
— Estás idiota , Maria.
Essas naus foram vintena
Que eu herdei da minha tia!
Por todo o ouro do mundo
eu jamais a trocaria!

Dou-te tudo que quiseres:
Dou-te xale de Tonquim!
Dou-te uma saia bordada!
Dou-te leques de marfim!
Queijos da Serra Estrela,
perfumes de benjoim...

Nada.
A mulata só queria
que seu Manuel lhe desse
uma nauzinha daquelas,
inda a mais pichititinha,
prá ela ir ver essas terras
"De Oropa, França e Bahia"...

— Ó Maria, hoje nós temos
vinhos da quinta do Aguirre,
uma queijadas de Sintra,
só prá tu te distraire
desse pensamento ruim...
— Seu Manuel, isso é besteira!
Eu prefiro macaxeira
com galinha de oxinxim!

"Ó lua que alumias
esse mundo de meu Deus,
alumia a mim também
que ando fora dos meus..."
Cantava Seu Manuel
espantando os males seus.

"Eu sou mulata dengosa,
linda, faceira, mimosa,
qual outras brancas não são"...
Cantava forte Maria,
pisando fubá de milho,
lentamente no pilão...

Uma noite de luar,
que estava mesmo taful,
mais de 400 naus,
surgiram vindas do Sul...
— Ah! Seu Manuel, isso chega...
Danou-se de escada abaixo,
se atirou no mar azul.

— "Onde vais mulhé?"
— Vou me daná no carrosé!
— Tu não vais, mulhé,
— mulhé, você não vai lá..."

Maria atirou-se n´água,
Seu Manuel seguiu atrás...
— Quero a mais pichititinha!
— Raios te partam, Maria!
Essas naus são meus tesouros,
ganhou-as matando mouros
o marido da minha tia !
Vêm dos confins do mundo...
De "Oropa, França e Bahia"!

Nadavam de mar em fora...
(Manuel atrás de Maria!)
Passou-se uma hora, outra hora,
e as naus nenhum atingia...
Faz-se um silêncio nas águas,
cadê Manuel e Maria?!

De madrugada, na praia,
dois corpos o mar lambia...
Seu Manuel era um "Boi Morto",
Maria, uma "Cotovia"!

E as naus de Manuel Furtado,
herança de sua tia?

— continuam mar em fora,
navegando noite e dia...
Caminham para "Pasárgada",
para o reino da Poesia!
Herdou-as Manuel Bandeira,
que, ante a minha choradeira,
me deu a menor que havia!

— As eternas naus do Sonho,
de "Oropa, França e Bahia"...

O CARNAVAL ESTÁ CHEGANDO - EVOÉ


GETÚLIO CAVALCANTI

ÚLTIMO REGRESSO

Composição: Getúlio Cavalcanti

Falam tanto que meu bloco está,
dando adeus pra nunca mais sair.
E depois que ele desfilar,
do seu povo vai se despedir.

Do regresso de não mais voltar,
suas pastoras vão pedir:
Não deixem não, que o bloco campeão,
guarde no peito a dor de não cantar.
Um bloco a mais é um sonho que se faz
o pastoril da vida singular.

É lindo ver ver o dia amanhecer,
ouvir ao longe pastorinhas mil,
dizendo bem, que o Recife tem,
o carnaval melhor do meu Brasil

O BICHO


Manuel Bandeira

VI ONTEM um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

COMPUTADORES A LENHA, CHIPS A VAPOR

Malungo

Mãos analfabetas folheiam cordéis digitais.
Paralíticos binários dançam cirandas ancestrais.
Os alto-falantes vomitam os sons dos sintéticos
baiões.
Um bando alienando o povo com seus forrós
charlatões.

Neurônios, fios e tomadas.
Circuitos e impulsos nos pés
Dançando um maracatu elétrico.
Das mãos saem faíscas;
Palmas pro coco de roda!

Um pensamento plugado na eletrosfera
E um cérebro iluminando quarteirões.

DEUS-VERME


Augusto dos Anjos

O DEUS-VERME

Factor universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme - é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação fúnerea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

VOZ POR TODA PARTE

Natanael Lima Jr.

um acordo fiz contra o acordo:
sangrar de vez a voz
e ser grito e lábios eternamente.

um acordo fiz contra o acordo:
ter palavras qual extensão da vida
e ser olhos, mãos e alma.

um acordo fiz contra o acordo:
jamais limitar o sonho
e viver até desflorescer.

um acordo fiz contra o acordo:
jamais ressuscitar a dor,
ser amor permanente
e voz por toda parte.


*Natanael Lima Jr. é membro da Academia Cabense de Letras

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

ACTA A TODO VAPOR



A ACTA - Associação Cabense de Teatro Amador, continua a todo vapor, no processo de revitalização e anuncia para o dia 26 de janeiro, às 19 horas, a primeira reunião do ano, estando na pauta, dentre outros assuntos, a XV MOCASPE. Lugar de ator é na ACTA. Participe.

PONTO DE CULTURA BACAMARTE: TIRO DA PAZ


OFICINA DE XAXADO

Dia 23 de Janeiro, sábado, a partir das 9 horas da manhã, Oficina de Xaxado, grátis, promovida pelo Ponto de Cultura Bacamarte: Tiro da Paz, em convênio com a Fundarpe. O Ponto de Cultura é coordenado pelo poeta e artista plástico Ivan Marinho, que também integra o grupo de Bacamarteiros do Cabo de Santo Agostinho.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

FANTASIA DA JUVENTUDE LÍRICA


O Coral e Orquestra Fantasia da Juventude Lírica já está em fase de ensaio geral. Coordenado e liderado pelo professor e maestro Domingos Sávio, o grupo, nascido no Cabo de Santo Agostinho é, hoje, um nome bastante requisitado por Blocos de Recife e para apresentações em focos de animação do carnaval de Pernambuco.

TÁ CHEGANDO O CARNAVAL - EVOÉ


Dia 31 de Janeiro acontece o tradicional Encontro de Blocos, na Rua da Aurora, em Recife. É simplesmente espetacular este evento que leva os presentes a se deliciarem com o carnaval romântico dos Blocos Líricos. Vale a pena chegar, no final da tarde e entrar pela noite, curtindo os mais belos frevos-de-blocos. É uma viagem ao mundo do carnaval romântico. Vale a pena conferir.

DIVERSIDADE MUSICAL DE PERNAMBUCO


Canto Reggae é uma banda Pernambucana que emite som de raiz. Com uma equipe forte e focada em fazer o melhor reggae, ela vem se destacando há mais de sete anos no cenário plural de Recife. A banda nasceu de uma conversa de dois músicos da Cidade do Cabo de Santo Agostinho, litoral sul de Pernambuco. Oberdan, que veio da MPB dos bares e das noites e Moares, que veio do Rock da banda ELITE NA MIRA. Resolveram formar uma banda de reggae que até então era novidade em Cabo de Santo Agostinho.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

PARA NÃO NOS ESQUECERMOS

Douglas Menezes

Na década de oitenta do século passado, um grupo de jovens aqui do cabo de Santo Agostinho fundou um folheto poético chamado “Para não nos Esquecermos”. Natanael Júnior, Paulo Cultura, de saudosa memória, Antonino Júnior, Frederico Menezes, Gerson Santos, Jeová, entre outros, faziam parte desse trabalho, cuja tentativa maior era resgatar o fazer poético da cidade de Santo Agostinho e avivar a memória dos cabenses para a necessidade de se perpetuar o bem imaterial do município através da arte. Foi uma angustiante busca de se produzir uma “Cantiga para não morrer”, como bem diz o grande poeta Ferreira Gullar. E embora de vida efêmera, a publicação foi um grito, uma chamada de atenção, um incentivo para que não deixássemos de falar, de ter voz, de mostrar à ditadura, principalmente a nível da cidade, que nós estávamos vivos, que tínhamos corações e mentes e, sobretudo, sensibilidade.

Fazíamos parte do grupo e não lembramos bem quem colocou o título tão sugestivo. O certo é que, a partir daquela edição, alguns companheiros não pararam mais de produzir literatura, embora uns tivessem feito um hiato e depois retornado à produção. Parte deles lançou livros, que hoje são antológicos dentro do fazer literário da cidade do Cabo. Natanael Júnior conseguiu a façanha de publicar um livro pelas Edições Piratas, um dos movimentos mais significativos do século vinte na cultura pernambucana. Podemos mesmo dizer que a década de oitenta fez surgir boa parte da hoje Academia Cabense de Letras. Aqueles sonhadores não pleiteavam fama, glória literária, mas apenas um espaço para poder cantar o que a alma implorava.E lembremos: isto ainda na ditadura militar, onde a liberdade de expressão se mantinha cerceada.

Aqueles jovens escritores confirmaram, também, a visão de que se podia fazer cultura sem a tutela do poder público, à época, como hoje, insensível aos bens imateriais de uma comunidade. Mostraram que é possível dizer “as coisas” sem o carimbo oficial” que, muitas vezes, tiram a chance do artista ser realmente livre para realizar seu trabalho. Sua arte sobrevivia da necessidade de produzir esteticamente e de fazer história,deixando claro que a cidade é o povo, com o seu cotidiano sofrido, com sua tradição natural. As pessoas simples é que fazem a historiografia de um lugar, pois o poder é passageiro e muitos dos governantes são jogados apenas no lixo dos anos que se passam.

“Para não nos Esquecermos” teve vida curta, foi sucedido pelo bem mais elaborado “Sol de Versos”, mas, embora quase esquecido, deixou semente e marcou nossa existência. Guardamos suas edições como a um tesouro que não tem preço. Em seu último e eterno número a frase emblemática, que resume o espírito romântico, rebelde, histórico e identificador com a cidade: “Tem Arte e Artistas nas Ladeiras do Cabo de Santo Agostinho”.Lição que os novos deveriam assimilar, pois assusta como, a passos largos, perdemos a identidade e o humanismo. Tornamo-nos cosmopolitas e ricos economicamente, mas estamos esquecendo de beber a água da fonte da espiritualidade que é a cultura. E antes que seja muito tarde, façamos o retorno sem deixar de avançar. Toquemos o presente buscando inspiração no passado “para não nos esquecermos”.

- JANEIRO DE 2010

*DOUGLAS MENEZES é membro da Academia Cabense de Letras

BICHO DE LIXO


Antonino Oliveira Júnior

Passa o ônibus,
passa a moto,
passa o carro;
Levanta o vidro,
põe o capacete,
liga o ar...
Ninguém aguenta
da sociedade o escarro
que fede,
que tem doenças,
que tá podre,
que faz podre;
Tem urubu, tem cachorro,
tem o outro
que fala, que chora,
que sente...

Acelera...tá na hora...
Na Igreja
quero a hóstia, quero o pão,
quero a bênção
do Pai que padece,
do Pai que é pai
de todos nós, de todos nós, de todos nós...
de todos nós?!?

Então, para o carro,
desce o vidro, estende a mão
e não ignora
que é teu irmão
que tá no lixo,
feito bicho!!!

Amém! Aleluia! Que assim seja!


*Antonino Oliveira Junior é membro da Academia Cabense de Letras

SOLANO TRINDADE



TEM GENTE COM FOME
Solano Trindade


Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome...

Piiiii!

Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas, Cordovil,
Brás de Pina,
Penha Circular
Estação da Penha,
Olaria,
Ramos,
Bonsucesso,
Carlos Chagas,
Triagem, Mauá,
trem sujo da Leopoldina,
correndo correndo,
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar,
em algum destino,
em algum lugar...

Trem sujo da Leopoldina,
correndo correndo,
parece dizer:
tem gente com fome,
tem gente com fome,
tem gente com fome.

Só nas estações,
quando vai parando,
lentamente,
começa a dizer:
se tem gente com fome,
dai de comer...
se tem gente com fome,
dai de comer...
se tem gente com fome,
dai de comer...

Mas o freio de ar,
todo autoritário,
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuu.......

CURTAS E BOAS

Neste domingo, às 11h, tem debate sobre alguns dos espetáculos locais da programação no Espaço Cultural Fiandeiros (Rua da Matriz, 46, 1º Andar, na rua lateral da Igreja da Boa Vista, perto da praça Maciel Pinheiro, num prédio azul). Serão analisadas as peças Greta Garbo Quem Diria..., Histórias de Além-Mar, Pinóquio e Suas Desventuras e PLAYDOG. Mediação: Leidson Ferraz. Debatedores: Luís Reis e Fernando Limoeiro (MG). INICIATIVA INÉDITA.

Na próxima segunda, às 19h, no Teatro Apolo, acontecerá a leitura dramática de “Prometeu Acorrentado”, do dramaturgo grego Ésquilo, com direção de Samuel Santos e elenco do Grupo Teatral Quadro de Cena. Ingresso: R$ 1 (hum real).

Tudo isso acontece por conta do JANEIRO DE GRANDES ESPETÁCULOS.

PONTO DE CULTURA



Oficina de Xaxado, grátis, no Ponto de Cultura Bacamarteiros Tiro da Paz, coordenado pelo artista plástico e poeta Ivan Marinho, em convênio com a Fundarpe. A Oficina acontece neste dia 17 de janeiro, 9 horas da manhã, no Teatro Barreto Júnior, Cabo de Santo Agostinho.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

POETAS HOMENAGEIAM FREI CANECA



O Frei Joaquim do Amor Divino, conhecido como Frei Caneca, um dos heróis da Revolução de 1817, é homenageado hoje em Recife, no Museu do Forte das Cinco Pontas, em solenidade que contará com um recital que terá a participação de Cida Pedrosa, Mariane Bigio, Suzana Mooraes e Silvana Menezes, que declamarão pesias de autoria do Frei Caneca. O recital será acompanhado pela música barroca do Grupo Flor de Maio. O evento acontece às 17 horas.

O DOM DA PAZ



Pensando bem
Dom Hélder Câmara


que importa
que a sombra
que atinge a todos
me atinja, também!?...
Nem me sentiria à vontade
diferente de todos...
Essencial
é que seja de luz
o ramo
cuja entrega
é a razão da minha vida
e de meu vôo!...

FRASES DE D. HÉLDER CÂMARA

“Não há penitência melhor do que aquela que Deus coloca em nosso caminho todos os dias”.

“A maneira de ajudar os outros é provar-lhes que eles são capazes de pensar”.

“Feliz de quem atravessa a vida inteira tendo mil razões para viver”.

“As pessoas são pesadas demais para serem levadas nos ombros. Levo-as no coração”.

“... Feliz de quem passa pela vida; tendo mil razões para vivê-la ...”

“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”.

“Não me dou a penitências.Com todo respeito que me merecem os santos, não sou homem de autoflagelações... Não há penitência melhor do que aquelas que Deus coloca em nosso caminho”.

“Feliz de quem entende que é preciso mudar muito pra ser sempre o mesmo”.

PROGRAMAÇÃO DE ABERTURA DO CINEMA SÃO LUIZ


Colaboração Solange Lopes

Terça-feira (12)
Nossos Ursos Camaradas (2009, 12 minutos), de Fernando Spencer
Baile Perfumado (1996, 93 minutos), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas

Quarta-feira (13)
Até o sol raiá (2007, 12 minutos), de Fernando Jorge e Leanndro Amorim
Orange de Itamaracá (2006, 78 minutos), Franklin Júnior

Quinta-feira (14)
Ave Maria, mãe dos sertanejos (2009, 12 minutos), de Camilo Cavalcanti
KFZ-1348 (2008, 81 minutos), Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso

Sexta-feira (15)
Cachaça (1995, 13 minutos), Adelina Pontual
Deserto feliz (2007, 88 minutos), Paulo Caldas

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

MATÉRIA RIMA


Mário Hélio
(ao poeta Natanael Júnior)

cantamos a alegria num dia de angústia
nessa cantoada vã de inquieto som
e fomos toda rica lírica caixa de acústica
quando nada nem ninguém era bom

fizemos todas as flébeis e plásticas
artes humanas com passos e cenas.
imagens escorriam corriam como lágrimas
de todas as películas penínsulas-temas

de todas infantarsias coloridas
passapressendentro documenta do futuro.
(menos caótico) das múltiplas vidas
e o tanto muito após o túnel escuro.

a másc’ra ritualística que
usamos em palco com a pouca
imaginação o mundo que se antevê;
o escudo que não protege; a roupa

que não esconde. onde se condensa a luz
deixada por engano. o resposteiro: fuligem.
bailávamos nos espelhos espantalhos nus
a quando pedra cravava a vertigem.

indefinidos, soltos e finais
sem origem que nous explique, afinal
os não-criadores originais
sermos sombras pastiches d’obra original.

entretanto o enigma não se desfez. a
espada de Janus mostrou-nos que tememos.
a certeza brilha em nós, no entanto lá
dúbia imagem em dúbio reflexo. remos:

meros instrudimentos das mãos. que são as mãos?
artérias, peles, ossos, células, articulações...
e tanto-mais. os sós (desesperados sãos)
ainda andam recriando aparições.

o ser cada vez mais seco e sombrio
o servo cada vez mais menos livre e autônomo.
o verso sorve o som. resta-nos andante con brio
até que o outono chegue e cegue os ânimos antônimos.

e vamos nós, separados em nós.
prosseguimos. poucos querem morrer. a morte
ou sequer o pensamento nos apavora. e a voz?
que faz a voz do artista? oculta o corte

certo. um calor toma-nos o corpo. “Lorca, fazes
o que com os timbres emprestados, restos de prece?”
adoece-os. nenhum fenômeno. porém, crazes
vorazes grifam-se. grafa-se um esse

enorme mergulha na página. como posso ver-me
se o sentido de ver perdeu o sentido e a vista
não avista além do vasto? veste o finito. o verme
sobrevive. com verve capta-o o artista.

temos mesto, o senhor. o prazer se nos seduz
é para que a dor venha depois. a armadilha
é infalível. e o que traduz a tua pretensa luz
se a treva da luz é filha?

o que é doce cedo torna-se acre
e é de cera ainda todo santo.
o vate cumpre em parte o longo encargo,
o resto veta, atáveco. o resto é tanto!

se o fraco possui a força sem cedilha
e em anagrama vertida, os vocábulos
são rimas irmãs sem til. bastava-nos a cartilha
única do escriba para decifrar todos os incunábulos.


(25/01/82)

*Mário Hélio é membro da Academia Cabense de Letras

QUATRO HORAS E UM MINUTO


Miró

Quatro horas
Quatro ônibus levando vinte e quatro pessoas
Tristonhas e solitárias
Quatro horas e um minuto
Acendi um cigarro e a cidade pegou fogo.
Cinco horas
Cinco soldados espancando cinco pivetes
Filhos sem pai
E órfãos de pão
Cinco horas e um minuto
Urinei na ponte e inundei a cidade
Sei horas
O Recife reza
E eu voando pra ver Maria

BARROQUILHAS*


Ivan Marinho

Nas madrugadas insones
Sinto o tropel de chegada,
Sem ordem, desarrumadas,
De palavras, letras, nomes.
Balançam, saltam, deslocam
Sem ritmo ou direção
E da inquietação
Algo parece que evocam.
Todas de tanto maduras
Encontram-se a se encaixar,
Como que a despertar
Do sonho que se inaugura.
Então se cruza o ensejo
Com o anseio ancestral,
Nivelando ao animal
O instintivo desejo.
E preterindo o futuro,
Faz da noite a luz do dia
E a esfera, por magia,
Amolece o papel duro.
Pois o papel do poeta
É deixar claro o escuro

*Primeiro lugar no Festival Jaci Bezerra de Poesia,
do Centro de Estudos Superiores de Maceió


Ivan Marinho é membro da Academia Cabense de Letras

sábado, 9 de janeiro de 2010

MEMÓRIAS DA CENA PERNAMBUCANA



EXPOSIÇÃO: Memórias da Cena Pernambucana
De 12 a 31 | Teatro do Parque | Entrada franca

Fruto da pesquisa realizada para a coleção “Memórias da Cena Pernambucana” e idealizada a convite da Funarte para a reabertura do Teatro Glauce Rocha, no Rio de Janeiro, em 2009, a exposição traz banners com várias fotografias raras do nosso teatro, distribuídas por sete contextos: históricos, rurais, urbanos, clássicos, provocativos, lúdicos e recordistas.

Curadoria: Leidson Ferraz.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

UM NOVO TEXTO



Já em fase de conclusão de revisão, o novo texto de Antonino Oliveira Júnior ganhará as ruas e subirá aos palcos dos nossos teatros. O texto "CORAÇÃO LILÁS" é um mergulho no universo da mulher e fala, fundamentalmente da relação entre duas mulheres amigas, que expoem seus dramas, suas alegrias, suas angústias e seu sentimentos em momentos de diálogos muito fortes. Um dos momentos decisivos da peça é quando a personagem Silvana revela e denuncia que a amiga Letícia sofre violência na relação com o marido, no lar. "Denunciamos a maior das violências sofridas pela mulher. Maior que a violência física, que machuca, é verdade, mas é somente no corpo. Denunciamos a violência afetiva que sofre a mulher. É uma violência que deixa marcas profundas em sua alma", define Antonino Oliveira Júnior, autor do texto.

Durante mais de um ano, Antonino manteve contato quase que diário, com mais de 600 mulheres, dos mais diversos lugares do Brasil. Tanto pessoalmente, quando em conversas pela internet, nos sites de relacionamentos. "Conhecendo por dentro o universo da mulher, descobrimos verdades e realidades que jamais imaginamos que exista", conclui Antonino.

ATUALIZAÇÃO DO BLOG

Comunicamos aos leitores que, neste mês de janeiro, a atualização deste Blog acontecerá nas segundas, quartas e sextas-feiras, pretendo que no mês de fevereiro retome a sua atualização diária.

ACADEMIA CABENSE DE LETRAS



Acontece hoje, dia 8 de janeiro, a primeira reunião da Academia Cabense de Letras, às 19 horas, no prédio da Loja Maçônica Alvorada da Paz. Dentro da extensa pauta, consta a discussão e aprovação de nomes para ampliação do quadro de membros e a publicação de uma Coletânea de escritores cabenses, de ontem e de hoje.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

RECUSA


Herivelto Martins

Esta dor que deixaste em minha alma
Com tanta indiferença
Eu não posso afasta-la sequer
Um momento de mim
Quanto mais me desprezas
Mais quero sentir tua presença
Não consigo esquecer-te, meu deus,
Por que sofrer assim ?
Sem motivo nenhum
Tu recusas
Um amor tão sincero
Sem motivo nenhum
Abandonas a felicidade
A minha vida é uma vida
De mágoa, de dor e descrença
E eu sofro, ao sentir na recusa
Tamanha indiferença.

UM POEMA DE MIRÓ



O urubu
Come carniça e voa
O homem
Come hamburguer
E nem-nem.

GENIALIDADE DE MIRÓ

Merece um tiro
Quem inventou a bala!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

CHICO BUARQUE



Morte e Vida Severina
Chico Buarque


Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo
É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo
É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada nao se abre a boca
É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)
Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas à terra dada nao se abre a boca